O Futurismo e o Fascismo

(In «Jovem Revolução», n.º 5, 1989, págs. 8/9)

«Vittorio Veneto e a chegada do Fascismo ao poder constituem a realização do programa mínimo do Futurismo. Este programa mínimo propugnava o orgulho italiano, a confiança ilimitada no futuro dos italianos, o heroísmo quotidiano, o amor do perigo, a violência reabilitada como argumento decisivo, a religião da velocidade, da novidade, do optimismo e da originalidade, a chegada dos jovens ao poder contra o espírito burocrático, académico e pessimista».

Marinetti sintetizava assim, em 1924, os elementos de afinidade ideológica entre o Futurismo e o Fascismo, madurados nas batalhas interventistas conduzidas lado a lado com Mussolini e na colaboração dialéctica com os ‘fasci di combatimento’. Um conjunto de ideias-força com claras implicações políticas, animadas ao mesmo tempo de um espírito revolucionário, nacionalista, juvenil, anti-passadista, que os futuristas puseram na base da sua acção muitos anos antes do nascimento do Fascismo, com uma vontade totalizante de renovação artística, ética e social decididamente não homogénea com as obras concretas reaccionárias em que se dissolveu, de facto, o regime do fascismo-vittorioemanuelista.

Em poucas palavras e numa visão marxista, o Fascismo foi nos anos da monarquia uma fusão hegeliana da Nação com o Estado. Os elementos reaccionários predominaram e levaram toda uma Ideia para caminhos não consentâneos com o Vanguardismo. Essa tendência só seria vencida, e apenas em parte, com o advento da República Social Italiana, depurado que foi o Partido Nacional Fascista dos acomodatícios que normalmente medram à volta do poder.

Mas, como as vanguardas que se seguiram, o Futurismo foi uma resposta ao avançar previsível das condições de despersonalização e de transmutação do homem, próprias da sociedade de massas, através duma concessão dinâmica, desbordante, orgiástica da arte, intensa como expansão de uma energia que combate os modelos de comportamento estereotipados: a própria exaltação da máquina, da técnica, das descobertas científicas situava-se no âmbito de uma valorização da criatividade individual.

Assim, e no seguimento de algumas sugestões do simbolismo francês, rico de factores libertários e de rebelião, conjugadas com as formulações mais radicais do pensamento vitalístico europeu, de Nietzsche a Bergson e a Sorel, o Futurismo opôs à atomização e à dulcificação tendencial pressuposta pelo materialismo positivista e à crise das filosofias omnicompreensivas de cariz idealístico e espiritualista, uma saída através de uma relação vitoriosa entre o Eu e o Mundo, fundada sobre o imparável potenciamento da subjectividade criativa e do seu domínio absoluto sobre as leis da vida social e da história. Da visão do mundo que daí resultava, ou seja, a vertigem do risco e da aventura, da juventude generosa iconoclasta, vinha a explosão de vitalidade incontrolada, que representavam as revoltas da liberdade e da energia humana contra a senilidade mórbida e mortuária de uma sociedade fechada sobre os costumes e os valores passadistas.

A actividade estética apresenta-se assim em oposição e alternativa ao modo de vida dominante.

A acção dos futuristas (alguns dos quais vindos do anarquismo, como Carrà e Boccioni), negando o valor ao quotidiano pacífico, tendia a destruir os mecanismos da repetição através das irrupções contínuas do imprevisto, da violência e da inovação.

Perante um monarco-fascismo que não conseguiu a ruptura total, não admira que Marinetti escrevesse: «o Fascismo opera politicamente, ou seja no âmbito da nossa península, cujos limites estão desenhados. O Futurismo opera, por sua vez, nos domínios infinitos da pura fantasia, e pode pois e deve ousar, ousar, ousar sempre mais temerariamente».

Daí à trivialização redutiva e instrumentalizada dos temas futuristas pelo Fascismo foi um passo.

Uma vez mais, o instalado, o condicionado, o burguês venceu. Só cerca de vinte anos depois a verdade veio com a República Social. Mas já era tarde.

No entanto, o Vanguardismo demonstrado expandiu-se pela Europa. E todos os que se lhe seguiram beberam e continuarão bebendo na sua fonte.

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