Céline – o escritor maldito


Louis-Ferdinand Céline, ou melhor, Louis-Ferdinand Destouches, de seu verdadeiro nome, nasceu em Courbevoie, França, em 27 de Maio de 1894.

A conhecida escritora anti-fascista Maria Antonietta Macciochi, no seu livro "Elementos para uma análise do Fascismo", define-o como «o mais genial dos escritores nazi-fascistas», o que, de certa forma, não anda longe da verdade. Na totalidade dos prólogos dos seus livros, editados após a II Guerra por Gallimard, se louvam as suas excelências literárias, ultra¬passando o estigma que a sociedade liberal a¬vançada lança sobre todos os que têm uma visão do mundo idêntica à defendida por Céline.

Teve uma participação muito corajosa na I Grande Guerra, o que lhe valeu ser ferido com tal gravidade que não foi aceite como voluntário para a II Guerra. O seu romance "Voyage au Bout de la Nuit" é um extraordinário relato que só um ex-combatente poderia compor. Conquistou com ele o prémio Renaudout e o aplauso unânime da crítica…

Licenciado em Física e doutorado em Medicina, em 1924, com uma tese sobre Semmelweiss, tornou-se médico da Marinha Francesa o que lhe permitiu viajar imenso, principalmente pela África e pela América. Aliando as suas viagens à sua paixão pela literatura, pôde formar uma visão completa do mundo de então e dos seus problemas. O seu estilo literário é profundamente pessoal, conseguindo unir uma extrema sensibilidade a um tom polémico e torrencial. Uma espécie de escrita falada. Éttiènne Lalou afirmou: «Céline restituiu ao francês falado os seus títulos de nobreza, e, sem ele, uma grande parte da literatura moderna não seria o que é».

As suas obras mais importantes são a já citada Voyage au Bout de la Nuit (1932), Mea Culpa (1936), Mort à Crédit (1936), Bagatelles pour un Massacre (1937) e L’école de Cadavres (1938). É igualmente nas três últimas obras e ainda em Les Beaux Draps, que o seu anti-semitismo se revela de forma mais agressiva. Outras obras são, por exemplo, Guignol’s Band (1943) e Entrétiens avec le Professeur Y (1952). Estas vão sendo regularmente reeditadas, o que não acontece com as quatro proscritas.

Sobre isso escreveu J. M. Infiesta: «Bagatelles pour um Massacre, Mea Culpa, L’école de Cadavres e Les Beaux Draps continuam paranoicamente proibidas 40 anos depois de terem sido escritas, num país que se orgulha de ser o baluarte das liberdades.

Os seus escritos têm sido instrumentalizados no sentido de fazer nascer a ideia de um Céline anarquista, que jamais existiu. Céline foi o profeta da decadência europeia, da decadência moral e física dos europeus. Les Beaux Draps é uma súmula de medidas sociais, em tudo idênticas às preconizadas pelos fascistas que ele compreendia serem a real alternativa ao sistema liberal-capitalista, cujo centro é o burguês, e ao sistema comunista, materialista. Sobre a União Soviética escreveu: «Só há três coisas que funcionam bem: o exército, a polícia e a propaganda!

É nos fascismos da Nova Ordem Europeia que Céline encontra a realização das suas propostas principalmente na realização do seu programa social, pois o Céline¬-médico conhece bem as carências populares. Em L’école de Cadavres ele afirma: «Os Estados Fascistas não querem a guerra. Nada têm a ganhar com ela e tudo a perder. Se a paz se pudesse manter por mais três ou quatro anos, todos os Estados da Europa se tornariam fascistas, da forma mais sincera, espontaneamente. E porquê? Porque¬ os Estados fascistas progridem a olhos vistos, entre arianos, sem ouro, sem judeus nem maçons, e levam a cabo o famoso programa socialista, que os comunistas sempre proclamaram mas nunca foram capazes de cumprir. Quem mais tem feito pelos trabalhadores não tem sido¬ Estaline, mas Hitler!».

«A França é uma colónia do poder internacional judeu… Qualquer tentativa de expulsar um judeu está votada, desde o princípio ao fracasso mais ignominioso… Gostaria de me aliar com Hi¬tler, porque não? Ele jamais se pronunciou contra bretões ou flamengos… Nada de nada… só se tem referido aos judeus porque não gosta de judeus. Eu também não! Levando as coisas à sua conclusão lógica, pois não é meu costume deformá-las, digo com toda a franqueza o que penso: prefiro uma dezena de Hitlers a um Léon Blum omnipotente. Ao menos posso compreender Hitler.»

Trata-se de um extracto da obra que talvez tenha contribuído para mais celebrizar Céline: Bagatelles pour un Massacre, editada pela primeira vez em 1937. Foi uma violenta e original sátira ao poder judaico, que teve um êxito prodigioso. Acerca desta obra, escreveu o poeta Robert Brasillach: «O anti-semitismo instintivo fez de Céline o seu profeta!».

Em toda a sua obra, Céline sempre se mostrou contra o confronto entre europeus, porque este era desejado pelos judeus e só estes lucravam com ele. Tornou-se pois, um acérrimo defensor da colaboração franco-alemã, pois essa era a grande oportunidade de derrubar o ódio do sistema democrático. Foi por isso um dos melhores colaboradores do P.P.F. de Doriot, o que quer dizer que nunca apoiou o governo de Vichy. Recorde-se que Vichy proibiu a edição de Les Beaux Draps em que lhe desagradava profundamente o programa nacionalizador aí proposto¬ por Céline, e que abrangia a Banca, os caminhos-de-ferro, os seguros, as indústrias pesadas em geral…

Apesar disso, Céline manteve sempre uma certa liberdade de crítica, indispensável a um artista ou a um escritor para manter clarividência nas suas ideias. E a sua crítica mais profunda foi precisamente aquela causa que arrastou o fascismo para a derrota: a falta de purificação nas suas fileiras onde abundavam os conservadores e os reaccionários, que há muito tinham afastado os verdadeiros revolucionários, socialistas e europeístas. Daqui a amargura expressa nos seus textos de então que, como acima foi dito, têm sido habilmente manipulados.

Em Junho de 1944 abandonou a França, indo estabelecer-se em Sigmaringen, na Alemanha, onde exerceu a medicina entre os exilados franceses. Mais tarde passou-se para a Dinamarca onde viveu até 1951.

Céline também foi vítima da caça às bruxas dos anos do pós-guerra. A sua cabeça foi posta a prémio e a extradição foi várias vezes pedida ao governo dinamarquês que, estranhamente, nunca a concedeu. Pensa-se que Céline seria possuidor de documentos comprometedores para altas personalidades dinamarquesas, e daí a inesperada hospitalidade. Como não o conseguiram apanhar, vingaram-se no seu editor Denoel que foi assassinado.

Só pôde regressar em 1952, mas para cumprir um ano de prisão. Pouco a pouco foi recuperando o seu prestígio literário, obviamente sem nunca tocar no anti-semitismo, o que lhe valeu uma certa complacência do governo francês. Chegou inclusivamente a colaborar no órgão da esquerda bem-pensante L’Express.

Após a sua morte, ocorrida em Meudon, a 1 de Julho de 1961, as suas obras têm vindo a ser regularmente reeditadas, com excepção das obras proscritas. Por edições destas últimas, anteriores à guerra ou clandes¬tinas, há quem tenha visto ser pagas verdadeiras fortunas.

Céline é um dos expoentes de uma geração de notáveis escritores, sendo considerado um dos melhores escritores franceses de sempre.

Não foi um herói ou um mártir. Céline foi apenas um escritor. Um grande escritor. O primeiro samizdat da sociedade liberal-capitalista avançada.

***

«O burguês não se importa com nada. O que ele quer é manter os seus quartos, as suas acções da Royal Dutch, os seus privilégios, a sua situação na Loja onde possui excelentes relações... precisamente as mesmas que o ligam ao Ministério.

Em definitivo, ele é como o judeu, porque é o judeu que possui o ouro e o mais gordo Bezerro no seu Templo. São coisas que nem sequer se discutem! São profundamente evidentes e isso chega. A única coisa que o burguês lamenta é não ter nascido judeu, ter a mãe ou o pai judeu. A verdadeira nobreza da nossa era! Ele imita os judeus em tudo: as mesmas opiniões, as mesmas manias, as mesmas vedetas, as mesmas putas, as mesmas zibelinas, os mesmos truques. Ele segue obcecado os judeus, o melhor que pode. Como um pequeno porco.

Mas o judeu tem "várias cordas no seu violino". É Trotsky e Rotschild ao mesmo tempo. Tem um guisado para todos os molhos, É assim que ele vai usar o burguês. Samuel Bernard e ao mesmo tempo Sansão! Primeiro as carícias e depois plafft! Ha! Ha! Eis, aqui a adivinha!
».

«Les Beaux Draps» págs. 70 e 71.

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