Do “Jovem Portugal” à “Ordem Nova”: 20 anos de combate fascista

Artigo publicado no “Expresso” de 5 de Fevereiro de 1983 por José Paulo Fafe

Foi na sequência da crise académica de 1962 e com o objectivo de suster a ascensão da oposição no movimento associativo, que os grupos organizados de cariz fascista (re)começaram a surgir em Portugal.

Após o desaparecimento dos “camisas azuis” de Rolão Preto, Salazar conseguira agrupar os fascistas na Legião Portuguesa e na Liga dos Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa, controlando assim um pouco os seus ímpetos radicais.

Em 1962, é criada em Lisboa a Juventude Portuguesa Nacional-Sindicalista, vulgarmente conhecida por “Jovem Portugal”. A sua existência foi efémera, dada a mobilização dos seus principais dirigentes (Zarco Moniz Ferreira e José Valle Figueiredo, entre outros) para o então Ultramar português. Na sua curta existência, o “Jovem Portugal” manteria um jornal (“Ataque”) e estaria em estreita ligação com a “internacional” fascista de então (“Jeune Europe”), liderada pelo belga Thiriart. Entre os vários nomes conhecidos que figuravam nas hostes dessa organização fascista, contava-se o então dirigente local de Almada, o actual correspondente da RTP em Madrid, Vasco Lourinho.

De 1963 a 1965, um pequeno e restrito grupo dirigido por Jorge Moreira (assessor do ex-ministro da Educação, Vítor Crespo, em 1982) e por Carlos Meirelles (mais tarde inspector da PIDE), denominado Frente dos Estudantes Nacionalistas, preencheu de algum modo o “vazio” deixado pela ida para Angola e Moçambique da maioria dos quadros do “Jovem Portugal”. Foi essa mesma FEN, que viria a ter um papel importante no assalto e destruição da Associação Portuguesa de Escritores, aquando da atribuição de um prémio literário ao escritor angolano Luandino Vieira.

Em 1965, com o regresso a Lisboa dos dirigentes do “Jovem Portugal”, é fundada a Frente Nacional Revolucionária, também conhecida por Formação Legionária Académica, e que publicou durante quase dois anos um jornal intitulado “Frente”. A FEN era quase exclusivamente formada pelos membros da chamada “lança” académica da Legião. A sua existência duraria até 1968, data em que surgiria o “Movimento Vanguardista”.

“1968, a queda do regime”

Luís Fernandes, um dos fundadores do Movimento Vanguardista considera assim, o regime deposto em 25 de Abril: “Já não era o nosso… O Estado Novo morreu com o prof. Salazar, e Marcelo mais não foi que o percursor da queda do regime!”.

O MV foi talvez o mais importante grupo fascista ante-25 de Abril. Embora a sua existência não ultrapassasse 1971, o MV, desenvolveu uma cerrada e feroz oposição a Caetano e à sua política. No jornal “Agora”, o MV manteria uma página intitulada “Vanguarda”, ao mesmo tempo que publicaria sob o mesmo título uma revista, que duraria apenas seis números.

Até 1974, nenhum outro grupo fascista seria criado. Os quadros dos grupos anteriormente referidos agrupar-se-iam na Liga dos Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa, dirigida por Luís de Avillez e Elmano Alves, e na Força Automóvel de Choque (dependente da Legião) comandada pelo então deputado “ultra” Francisco do Casal Ribeiro.

Entretanto, em Coimbra, surgiriam dois agrupamentos fascistas de cariz intelectual: a revista “Itinerário”, dirigida por José Valle de Figueiredo e a cooperativa livreira “Cidadela”, de cuja direcção faziam parte nomes como o do actual ministro da Cultura, Francisco Lucas Pires, o da sua irmã Maria Adelaide, o do agora deputado do CDS, Cavaleiro Brandão, o do conhecido analista político José Miguel Júdice, bem como de Goulart Nogueira, fundador do grupo teórico “Intervenção Nacionalista”. Na dependência dessa cooperativa funcionava a “Oficina do Teatro dos Estudantes de Coimbra”.

Também em Lisboa, e durante esse período (1971-1974) o intelectual Jaime Nogueira Pinto dirigiria um jornal denominado “Política”, que acabaria com o 25 de Abril.

“Marcelo, capitão de Abril”

Na opinião de Paulo Teixeira Pinto, um destacado quadro fascista dos últimos anos, “Marcelo Caetano foi o mais inteligente capitão de Abril…”. Essa sua opinião é partilhada quase unanimemente por todos os militantes fascistas, que consideram o último presidente do Conselho ante-25 de Abril como “o grande responsável pelo golpe militar de 1974”.

Em 1974 é criado em Lisboa um movimento essencialmente juvenil denominado Movimento Nacional Revolucionário. Embora concorrendo a algumas eleições em diversos liceus da capital, o MNR praticamente autodissolveu-se com o advento do “gonçalvismo” – tendo a maioria dos seus quadros optado por uma participação política nas organizações de juventude dos partidos de direita existentes na altura.

Entretanto, e ainda em 1975, o antigo dirigente do “Jovem Portugal” , Zarco M. Ferreira funda um restrito grupo denominado “Frente de Libertação Nacional-Sindicalista”, cuja acção se reduzia quase exclusivamente à publicação do jornal “Em Frente” e a algumas (poucas) acções isoladas.

Em 1976, é fundado em Lisboa, o “Movimento Nacionalista”, que ainda hoje existe. Criado na dependência directa do semanário “A Rua”, o MN viveu praticamente enquanto o jornal de Manuel Maria Múrias existiu. Principais organizadores das comemorações do 10 de Junho, durante alguns anos, o MN veio praticamente a desaparecer com a detenção de onze dos seus dirigentes, durante uma operação da Guarda Nacional Republicana nos arredores de Sintra, num acampamento paramilitar desse grupo. Depois de seis meses de detenção, os seus dirigentes foram absolvidos pelo Tribunal de Sintra. Actualmente a maioria dos seus quadros estão ligados ao semanário “O Diabo”, caso por exemplo de Nuno Rogeiro. Segundo um destacado militante do MN, este movimento encontra-se presentemente a “hibernar”.

A “Mocidade Patriótica” funda-se em 1977 e logo toma de assalto a organização de juventude do Partido da Democracia Cristã (JPDC). São os principais responsáveis pelo afastamento do almirante Pinheiro de Azevedo do PDC. Segundo o presidente da JPDC, essa organização “jamais existiu”. “Serviu única e exclusivamente como capa legal da Mocidade Patriótica”. Abandonam o PDC, dias antes da saída de Sanches Osório (então secretário-geral) e da entrada deste para o CDS.

Nessa altura, através de comunicados publicados nos jornais “O Dia” e “A Rua”, uma fusão PDC/CDS, levada a cabo – segundo a MP – por Rui de Oliveira (pelo CDS) e por Sanches Osório e Sousa e Mello (pelo PDC) e “aconselhada” pela União Europeia das Democracias Cristãs.

Nas eleições intercalares de 1979, a maioria dos seus quadros apoiam, porém, a candidatura de Manuel Maria Múrias, pelo PDC, embora já sem pertencerem a esse partido. Nas legislativas de 80, todo o trabalho de propaganda da coligação de direita FN/PDC/MIRN é realizado pela MP. Entre as acções mais espectaculares da MP, contam-se os sucessivos assaltos ao Cinema Nimas, na sequência da exibição do filme “As Horas de Maria”.

Paralelamente, no Porto, entre 1977 e 1978, surgem diversos agrupamentos, tais como o Movimento Nacionalista – sem dúvida o mais forte -, a Frente Nacional Revolucionária (com excelentes relações com os espanhóis do CEDADE) e as Brigadas Portuguesas (BRIPO), que mais tarde viriam a dar lugar à Acção Nacional Revolucionária. Sem tanta expressão, existem ainda hoje no Porto, dois grupos restritos, denominados por “Resistência Fascista” e “Último Reduto”.

Ordem Nova

A Mocidade Patriótica vem dar lugar ao mais importante grupo fascista do pós-25 de Abril: a Ordem Nova. Fundada em 1980, por escritura notarial em Sintra, a ON terá uma existência legal de apenas dois anos. Depois de três notificações da Procuradoria-Geral da República, para a modificação de estatutos, a ON passa à clandestinidade, onde ainda hoje se mantém.

Dos seus fundadores faziam parte o tenente-coronel Gilberto Santos e Castro e Zarco Moniz Ferreira, fundadores e dirigentes em 1962 do “Jovem Portugal”, Paulo Teixeira Pinto, dirigente da extinta Mocidade Patriótica, Luís Fernandes, dirigente do antigo Movimento Vanguardista, entre outros. Considerada pelos seus dirigentes como a organização “herdeira” dos grupos fascistas da década de 60, a Ordem Nova é fundada não como partido político, mas sim com o objectivo de ser “um grupo de pressão”. Segundo um dos seus fundadores e dirigente, “a Constituição não permite a ideologia fascista, pelo que a formação de um partido com essas características em Portugal é impossível”.

Mantiveram durante quase dois anos uma sede na Rua Tomás Ribeiro, que lhes valeu uma “manchete” de primeira página no extinto matutino “Portugal Hoje”, e inúmeras referências em vários órgãos de informação (1).

Quando da eleição de Adão e Silva para Grão-Mestre da Maçonaria Portuguesa, um grupo de activistas tentou, sem êxito, o assalto ao Grémio Lusitano. Mais tarde, a ON enviaria a Madrid, uma delegação de mais de sessenta pessoas, para participar nas comemorações da morte de Francisco Franco. Alguns dos seus militantes tomaram parte na “guarda de honra” feita a Giorgio Almirante (líder do Movimento Social Italiano de Itália) e a Blas Pinar (chefe da Fuerza Nueva espanhola), aquando dessas mesmas comemorações.

A presença em Madrid dessa delegação originou um protesto do embaixador de Portugal, Sá Coutinho, derivada da “utilização abusiva do estandarte nacional”.

Durante quase duas semanas, mantém (no Rossio e na Praça de Londres) bancas de propaganda. Concorrem a diversas associações de estudantes do ensino secundário (2), e levam a cabo diversas operações de rua. A sua participação no conflito da Universidade Livre de Lisboa, é igualmente de realçar, embora o empenhamento de muitos dos seus militantes tenha sido movido quase exclusivamente por motivos pessoais, e de interesse académico.

Entretanto, a 26 de Janeiro de 1982, a Ordem Nova auto-extingue-se, optando, segundo um dos seus actuais dirigentes, “em virar-se mais para dentro”. “Interessa-nos mais a qualidade, pelo que a formação dos actuais quadros é-nos indispensável”, acrescenta.

Entretanto, e já depois do termo legal da ON, foi organizado a 28 de Maio de 1982, um jantar comemorativo desta data, realizado no restaurante “Casa Branca” (em Vila Nova de Gaia) e presidido pelo prof. Soares Martinez, ao qual assistiram cerca de 250 pessoas.

No passado dia 1 de Dezembro, na Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, e após a missa mandada dizer pela Liga dos Antigos Graduados da Mocidade Portuguesa, a Ordem Nova procedeu ao “juramento de trinta novos militantes”.

A Ordem Nova, passa assim por uma fase que o mesmo dirigente afirma ser de “reconversão”.

“Acabámos com os folclorismos, queremos ser mais selectivos e operacionais”, justifica.

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NOTAS PESSOAIS:

1. Este episódio inspirou também a banda Heróis do Mar, em temas como “Estou bem assim”, em que se contesta a decisão judicial de encerramento da sede, bem como as medidas de coacção impostas a alguns dirigentes. Os Heróis do Mar contavam entre si com três militantes da Ordem Nova.

2. Umas eleições associativas a que a Ordem Nova apresentou lista (a Lista N, encabeçada pelo luso-alemão Otto Von Haffe Teixeira da Cruz) foi a da Escola Secundária da Cidade Universitária (exclusivamente com 12º ano), tendo no entanto sido derrotada simultaneamente com a Lista da JSD, por uma lista unitária em que participei, no ano de 1981/82, composta por estudantes da JS, JCP, UDP, FUP e anarquistas.

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