A Cultura na luta política

Por António Marques Bessa

Depois do teórico marxista António Gramsci ter revolucionado a teoria do assalto ao Estado, com a abertura de uma nova frente na Cultura, esta deixou de ser um modo de vida, um enfeite de burgueses, um produto de consumo, para se transformar num campo de batalha, um instrumento ao serviço da Revolução Marxista. Ao atacar num ponto inesperado da sociedade global, o aparelho marxista ocupa uma zona sem significado em termos militares, mas decisiva em termos antropológicos e sociológicos. Na verdade, é na Cultura que enraíza a estrutura dos valores, o carácter nacional, os gostos e as tendências, o modo de conceber o mundo e a vida. É uma herança cumulativa, como a caracterizou Lorenz, formada por todo o equipamento material e espiritual que a sociedade possui, e com o qual responde aos desafios internos (crises) e externos (naturais e sociais).

A Cultura é, por conseguinte, aquilo que de mais precioso tem um Povo ou uma Etnia. É, por um lado, o traço que o distingue dos outros povos, com costumes e mundividências distintas, e, por outro, a característica do processo de hominização. Embora os animais tenham tradições, inventem técnicas e comuniquem processos por mecanismos de difusão social, não possuem uma tradição cumulativa, quer dizer, as invenções e os conhecimentos não se conservam porque não há possibilidade de os acumular.

Ora, o que Gramsci faz é inovar no leninismo, ao introduzir a possibilidade de controlar o Estado a partir da Cultura. No reducionismo marxista, cultura é uma superstrutura gerada pela infra estrutura económica. As relações de produção, de exploração, isto é, o sistema económico, determinam um supersistema de justificação, que está ao serviço do explorador e serve para dominar intelectualmente o explorado. A esse sistema, integrado pela religião, educação, arte, meios de comunicação, etc., chamam os marxistas Cultura.

Na tradição leninista derrubava se o Estado a partir da Economia, e assim se punha fim à Cultura, que não passava de um gigantesco sistema de justificação ideológica. Com Gramsci altera se o esquema revolucionário. Para ele é fundamental dominar primeiro a Cultura "burguesa" e substituí-la progressivamente por uma "cultura proletária". As transformações e substituições operadas, assim, na "cultura burguesa", irão influenciar a infra estrutura económica, as relações de produção, o sistema social, mudando a mentalidade dos cidadãos. Só depois desta operação é que se deve conquistar politicamente o Estado, visto que este se encontra desarmado. A resistência, sempre baseada nas estruturas culturais de valores, nos conceitos internos da Cultura, sem esse suporte, nem sequer poderia existir. Daqui que o caminho para o poder nos Estados burgueses, desde há muito, seja este: assalto à Cultura, abastardamento de todas as características positivas do carácter e imagem nacionais, substituição de padrões nacionais por elementos culturais importados, enfraquecimento e eliminação da resistência dos intelectuais patriotas e, finalmente, domínio das principais alavancas da Cultura: meios de comunicação, universidades, institutos e instituições, editoras, escolas, arte, etc.

PORTUGAL – UMA CULTURA IGNORADA

A tarefa de conquista da "cultura burguesa" é cometida por Gramsci aos "intelectuais orgânicos". Materialistas que, cumprindo os objectivos estratégicos do partido comunista, paulatinamente conquistam posições no «establishment» cultural, e programam a substituição da cultura burguesa pela nunca demasiado falada "cultura proletária".

Em Portugal esta estratégia teve uma aplicação exemplar. Iniciada em tempos de Salazar teve os seus frutos maduros ainda antes de Abril de 1974. A Direita portuguesa, bem se queixava da "ditadura intelectual da esquerda", mas infelizmente ignorava a concepção geral da manobra e não possuía capacidade para responder a um ataque concertado num domínio que não entendia.

Com a notável excepção de uns quantos antropólogos portugueses (Jorge Dias – vergonhosamente silenciado –, António Carreira), filósofos (Álvaro Ribeiro, José Marinho, Pinharanda Gomes e Orlando Vitorino) e historiadores, que conformaram uma linha de resposta ao desmantelamento cultural português, respondendo no campo da Cultura ao assalto na Cultura, ninguém mais se opôs correctamente a essa máfia de "intelectuais orgânicos", autênticas prostitutas, adoradoras de tiranos, como lhes chama Jean Cau. A Cultura portuguesa morria nos seus elementos característicos e só um aviso aqui e ali alertava para o perigo.

Com o 25 de Abril, que completa o domínio marxista do Estado, os intelectuais orgânicos transferem se da Cultura para a Administração. Com o seu trabalho bem programado, o Povo envergonhava se de tudo quanto é marcadamente seu: a sua história, os seus heróis, os seus poetas, e passa a admirar e a aderir a valores que não são seus, a elementos culturais abastardados, que lhe vêm de Moscovo, de Washington, com a marca da novidade, da "libertação" e do progresso.

A Cultura foi um campo de luta e o Povo perdeu. O escol que a devia defender, como património material e espiritual da comunidade, não o soube fazer: foi derrotado.

QUE FAZER?

Ao domínio da Cultura, entendida como "cultura burguesa" por ignorância e reducionismo, há que responder com um ataque no campo da Cultura, entendida em toda a sua amplitude.

Para isso há que concentrar esforços, criar uma corrente de pensamento, iniciar o desbloqueamento interno, denunciando o trabalho dos "intelectuais orgânicos" e a sua sistemática prostituição. Assim, é urgente avançar com o planeamento do Instituto Padre António Vieira, como centro de investigação para a Cultura Portuguesa, bem como centro de difusão e educação. Aí se devem integrar os intelectuais ainda vivos e interessados em desbloquear e revigorar a cultura nacional. A metodologia pode variar (seminários, palestras, cursos, aulas, grupos de trabalho), mas o que deve estar presente no espírito de todos é que o assalto à cultura não se detém com balas de G3.

Além do Instituto, é indispensável uma associação político cultural, que utilize os resultados da investigação e difunda uma prática necessária e desalienante. Uma revista de estudos e uma editora são dois instrumentos necessários, que se podem inserir quer no instituto, quer na Associação.

Para lá disso, devia constituir objectivo a largo prazo a organização de uma Universidade Livre, primeiro com os professores disponíveis funcionando experimentalmente em regime de cursos supletivos, e depois abarcando as disciplinas sociais. Garantir se ia deste modo um alto nível didáctico num país que não o possui e, fundamentalmente, tinha se a possibilidade de preparar as bases de um autêntico combate pela Cultura Portuguesa.

No ano zero do nosso país, o mais importante é, além de poder comer, poder pensar. E para isso é indispensável libertar a Cultura dos bloqueamentos e implantações que a abastardam. Aí, bem como na Economia (uma parte da Cultura), está a grande aventura dos patriotas: voltar a entregar Portugal aos portugueses.

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