Apontamentos sobre Julius Evola

Por António José de Brito

Se há hoje, no ambiente intelectual da direita italiana, um pensador quase unanimemente respeitado e conhecido (embora nem sempre seguido) esse pensador é Julius Evola. O jovem escritor Giano Accame, num interessante estudo acerca do livro de Paul Sérant intitulado Romantisme Fasciste, observava que o pensamento de Evola não foi tomado muito a sério durante o vinténio mussoliniano (1). E compreende-se! Evola, dadas as suas afinidades com o esoterismo, na sua invocação duma tradição milenária vinda do alto, os seus estudo sobre a magia, não devia ser grandemente compreendido numa época dominada, essencialmente, pela controvérsia em torno do idealismo, e onde as atenções se centravam à volta de um filósofo de primeiro plano — Giovanni Gentile — que um sem número de intelectuais, dentro e fora do regime, atacava com fúria, enquanto outros o defendiam com entusiasmo.

De resto, não faltavam teóricos ortodoxos e fervorosos, incapazes na altura de se desviarem um milímetro dos princípios doutrinários formulados pelo Duce (aliás coadjuvado pelo autor da Teoria generale dello spirito come atto puro), no célebre artigo da Enciclopédia Italiana (Fascismo) e, ao pé deles, Evola, que não deixava de se mostrar reticente num ou noutro ponto, fazia figura de heterodoxo, ou pelo menos de moderado, assim se explicando que a sua figura se mantivesse numa discreta penumbra.

Após 1945, porém, os teóricos ortodoxos e fervorosos sumiram-se pela caixa do ponto para reaparecerem, bastantes deles, pintalgados com as cores demo-cristãs ou comunistas, ao passos que outros, desanimados e amargurados, cultivavam tão só o próprio desânimo e amargura. Sucedeu o contrário com Julius Evola, a quem os acontecimentos, em vez de o perturbarem e abalarem, como que firmaram a sua fé. E, acalmadas as querelas entre idealistas e anti-idealistas na atmosfera de problematicismo especulativo (2) que sucedeu ao fim da conflagração, fixaram-se, então, bastantes olhares naquele pensador isolado que, contra ventos e marés, continuava, inflexivelmente, fiel às suas teorias e com rude intransigência persistia na sua firme posição de «revolta contra o mundo moderno». Pouco a pouco o prestígio de Evola foi-se firmando e crescendo, entre quantos se recusavam a prestar reverência aos ídolos do momento e nele encontravam um duro e exigente mestre.

A explicar também o actual aumento da fama e influência de Julius Evola está o facto de, em nossa opinião, as suas obras mais notáveis serem do período posterior à derrocada da Itália e da Europa. Não conhecemos, exaustivamente, o conjunto dos seus trabalhos anteriores ou subsequentes à queda do Estado Fascista. Em todo o caso, dentre os livros que lemos, aqueles que foram escritos antes da guerra, v.g. Maschera e volto delle spiritualismo contemporaneo, Il mito del sangue, Rivolta contra il mondo moderno, revelam-se de muito menor interesse e, até de tónus intelectual inferior, ao dos publicados depois como Gli uomini e le rovine, Metafisica del sesso, Cavalcare la tigre. Cremos que o melhor de Evola é o dos últimos vinte anos, sem que isto signifique, no entanto, que haja qualquer solução de continuidade no evoluir do seu pensamento.

Engana-se quem imaginar que o autor de Il mistere del Graal não passa de um saudosista impenitente da época de Benito Mussolini e que os seus derradeiros ensaios constituem, pura e simplesmente, «apologia do Fascismo» (delito perigosíssimo, punido por uma lei sábia e justa). Começamos por afirmar, talvez causando surpresa, que Evola, em certa ocasião, chegou a reconhecer que foi Gentile (ao qual vota um injusto desprezo) o filósofo «especificamente fascista» (3). Ele situa-se noutro plano do que chama tradicionalismo, um tradicionalismo assaz diferente do que em Portugal ou na França se designa com esse nome e que pouco tem a ver com as concepções de um Bourget, de um Maurras, do Integralismo, etc.

A tradição, para Evola, não consiste no conceito meramente formal (não se veja nisto uma crítica) de continuidade ou permanência no movimento, sendo, antes, um conjunto material de princípios eternos e supra-humanos imanentes no fluir dos tempos (4) e que é a manifestação de uma transcendência espiritual de valor incondicionado, situada acima até, da distinção entre ser e não ser (5). É a tradição esotérica, que se perde no mistério das origens. Tomada no seu aspecto ético-político concreto, a tradição postula, primordialmente, o movimento para o alto, para o Transcendente.

Esse movimento começa por exigir o desenvolvimento do ser de todas as pessoas na sua especificidade própria, visto na singularidade de cada um se projectar, sempre, algo da infinita riqueza do Princípio Supremo. A seguir, impõe-se que cada um se insira voluntariamente numa hierarquia de subordinação face àquelas outras pessoas cujo ser seja mais pleno e mais perfeito, hierarquia que culmina na «personalidade absoluta» ou supra-individualidade, máxima universalização, em que se encarna o Império, a soberania, e que é elemento de unidade, enquanto fim derradeiro dos diversos tipos de personalidade inferior, a que estes se devem ordenar com obediência a acatamento. A personalidade absoluta liga já a esfera do mundo com o puro domínio da transcendência (6).

Evola, evidentemente, repudia o personalismo moderno, a «eminente dignidade da pessoa humana» de que falam tantos fariseus (7). Quando alude à pessoa, começa, logo por dizer que perfilha a tese da desigualdade radical das pessoas (8). Se julga conveniente que as várias pessoas se desenvolvam no que têm de singularmente seu, é sempre com a finalidade de as integrar numa ordenação hierárquica vertical, dirigida para cima, que só funciona e existe em função das diferenças pessoais (hierarquizar é diferenciar). Semelhantes diferenciações, correspondendo, no tocante ao ser, a um destacar-se do indefinido, representam, no entender de Evola, manifestações de profunda espiritualização e valorização. Com efeito, quase à maneira de Platão, ele perfilha um realismo idealista, assevera a existência real dum reino das ideias para além do visível, mundo que constitui a plenitude ontológica e axiológica. Por isso, para Evola, se alguém põe a sua personalidade em destaque, subindo na esfera do ontos, eleva-se, igualmente, na esfera ideal, espiritualiza-se. O grande mal é não emergir do domínio cinzento em que tudo é igual, indiferenciável, o domínio material do empírico.

Mas é óbvio que uma personalidade, ao destacar-se, está a distinguir-se das restantes e a admitir, assim, que possam umas estar abaixo, outras acima de si, no que diz respeito à sua relação ao princípio supra-pessoal supremo. Numa palavra: se não há hierarquia sem diferenciações não há hierarquia que não seja unificada, soberanamente, no cimo (9). É essa ordem hierárquica, a concepção de carácter visivelmente sacral, dado que a supra-personalidade dominadora recebe inspiração do Transcendente, como intermediária entre o sensível e o supra-sensível. Daí o gibelinismo de Evola, e seu desejo de restauração de um Império que, enquanto tal, seja algo de místico e religioso (10).

Todo este património ideológico, se tem, por certo, afinidades com o Fascismo na teorização da hierarquia e no resoluto apreço pelo Estado orgânico e pelo Imperium, afasta-se, contudo, em muito, de algumas concepções reinantes no vinténio, sendo Evola o primeiro a sublinhá-lo com insistência. Ele pretende, unicamente, situar o Fascismo no quadro do que chama o pensamento tradicional, aprovando nele o que se coadunar com tal pensamento e repelindo o resto. Uma tal destrinça entre o vivo e o morto no Fascismo é o conteúdo v.g. do opúsculo Orientamenti e dum sensacional artigo na revista Ordine Nuovo, intitulado Il Fascismo e l`idea politica tradizionale (11), depois ampliado às proporções de livro.

Concordemos ou não com os pontos de vista do escritor de Imperialismo pagano (12), o que não é possível é deixar de reconhecer-lhe uma forte originalidade. Algumas antinomias que traça, são, porém, a nosso ver insubsistentes: por exemplo, ele estabelece uma antítese entre a sua doutrina do Estado hierárquico e orgânico e algumas teses totalitárias e estatolátricas que sustenta encontrarem-se no célebre lema do Duce, «tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado» (13). Todavia se, usando as expressões de Evola, no «Estado orgânico... um símbolo de soberania, com um correspondente, positivo, princípio de autoridade, constitui a base e a força animadora, e com ele, quase por uma espontânea gravitação, os corpos sociais se encontram em sinergia; embora conservando a sua autonomia, desenvolvem eles actividades convergentes numa única direcção fundamental» (14), pergunta-se: concebe-se, neste caso, algo que se erga contra, ou se ponha de fora do âmbito dessa força animadora que é o símbolo da soberania? Não. E existirá, portanto, algo contra ou fora do Estado? Obviamente não. E nada havendo contra e fora do Estado, então «tudo no Estado, nada contra o Estado e nada fora do Estado». De resto, o Estado totalitário ou Estado ético, coisa alguma possuiu de nivelador, de tipicamente uniformizador, no estilo de um reformatório, consoante pretende Evola, antes por definição implica diferenciações, hierarquia, visto que, na sua ideia (tal e qual a expõem os teóricos) é universalização e unificação do particular e do múltiplo, logo elevação do particular e do múltiplo acima de si mesmos embora sem os destruir. Nestas condições, aceita-se o que distingue entre si os elementos múltiplos e particulares, e ipso facto se ordena estes mesmos em hierarquia, no seio do Uno e do Universal concreto. Nenhuma outra tendência se encontra nos grandes textos legislativos do Fascismo nem na sua mitologia política.

Não obstam contudo divergências desse género a que consideremos Julius Evola um curioso pensador, de metálico arcabouço, inimigo do lugar-comum e da vulgaridade mental, cuja ética merece atenta consideração.

Um dos seus derradeiros livros — Cavalcare la Tigre — é uma implacável crítica do ambiente contemporâneo, em especial nos seus aspectos intelectuais (existencialismo, relativismo, etc.). Desiludido um tanto da política, embora reafirme as suas ideias, Evola traça-nos um útil roteiro de completo repúdio interior das grosseiras formas que nos cercam, por meio do qual poderão preservar-se os valores eternos que venham a moldar, para futuro mais propício, as estruturas renovadas de um verdadeiro Estado. É a isso que chama, socorrendo-se de velha metáfora indiana, cavalgar o tigre, quer dizer, ultrapassar, desdenhando-a interiormente, a torrente dos acontecimentos torpes, vis, nauseantes e reles da actualidade, para aguardar, com firmeza, a hora em que a fera se fatigue e a possamos, enfim, domar. Não aceitamos a solução de Evola como única e exclusiva; achamos, sem dúvida, que, no combate que jamais se deve abandonar, é indispensável, na verdade, uma certa atitude de desprendimento íntimo, de não participação face ao fluxo dos eventos, sem o que as derrotas no domínio histórico positivo nos abalariam até ao âmago e nos tirariam a força para prosseguir na batalha. Cavalgar o tigre sim, mas nunca para apenas esperar um instante favorável (que talvez jamais surja), antes procurando criá-lo constantemente, mesmo que se falhe e nada mais venha a restar senão oferecer a própria vida num esforço derradeiro.

________________

Notas:

1 — Gustavo Bentadini, Dal`attualismo al problematticismo, La Scuola ed., Brescia, 1960, págs. 6, 155 e segs.
2 — Cfr. o volume Giovanni Gentile a cura di Vittorio Vettori, La Fenice ed., Florença, 1954, pág. 6.
3 — Julius Evola, Gli uomini e le rovine, Edizioni del`Ascia, Roma, 1953, pág. 21.
4 — Julius Evola, A doutrina do Despertar, trad. francesa de Pierre Pascal, Edit. Adyar, Paris, 1956, pág. 164; Julius Evola, Gli uomini e le rovine, cit., pág. 28/29, 50/51; Rivolta contra il mondo moderno, Fratelli Bocca ed., Milão, 1951, págs. 29-30.
5 — Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., pág. 46.
6 — Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., pág. 45.
7 — Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., págs. 44 em nota, 45, 50, 51; Rivolta contra il mondo moderno cit., págs. 25/28.
8 — Julius Evola, Rivolta contra il mondo moderno cit., págs. 52 e segs; Gli uomini e le rovine cit., págs. 138-139.
9 — In Ordine Nuovo, n.º 3, ano IV. Março de 1958, págs. 134 e segs.
10 — Que uma transcendência acima do ser e do nada possa manifestar-se na história como tradição, encontrando-se até imanente no tempo, é uma aporia insuperável em que se debate o pensamento de Evola. Manifesta este também um fundo desprezo pela filosofia (Cfr. Rivolta contra il mondo moderno cit., pág. 348; A Doutrina do Despertar cit., págs. 77/78) que é abertamente contraditório porquanto renegar a filosofia não é senão filosofar ainda.
11 — Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., págs. 62 e segs.
12 — Julius Evola, Il Fascismo e l`idea politica tradizionale cit., pág. 139.
13 — Julius Evola, Gli uomini e le rovine cit., pág. 63.
14 — Julius Evola, Il Fascismo e l`idea politica tradizionale cit., pág. 133; Gli uomini e le rovine cit., pág. 66.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários