O maior prosador futurista português

Por Rodrigo Emílio

“Os homens públicos são aqueles que o público conhece menos…”, afirmou certa vez António Ferro e com carradinhas de razão, diga-se, já que, quando assim falava, falava ele com inteiro conhecimento de causa e também com inteiro conhecimento de efeitos. No seu caso pessoal, resulta entretanto inadmissível que a imagem dele enquanto artista – e grande artista literário foi! – permaneça mergulhada na sombra projectada pelo seu vulto de político e homem público igualmente fora-de-série. O fenómeno, ainda assim, não deixará de ter, também ele, a sua explicação – que é porventura esta: António Ferro foi tão portentoso no domínio da criação estética pura, como no da chamada poesia da acção, onde o seu génio altamente empreendedor se exprimiu em bases culturais de espectacular e desbordante e proficiente pragmatismo. Faces que eram do mesmíssimo rosto, muito natural se torna que a mais visível delas – a mais exterior, digamos mesmo: a mais mundana das duas – ficasse a dar mais nas vistas do que a outra; e que, em detrimento da sua obra de criação escrita, prioridade viesse a ser dada à sua obra de intervenção activa. À primeira vista, a coisa aceita-se, de certo modo, se bem que essas duas facetas maiúsculas de António Ferro fossem entre si complementares.

Ciente como estava de que “raramente os princípios… chegam ao fim…”, não se limitou António Ferro a ser apenas o talentoso benjamim da nossa ínclita geração de futuristas. O pequeno editor d’Orpheu foi muito mais longe, e tratou, ele mesmo, de abraçar o apostolado da verdade futurista, de a converter em acção, de a resolver na prática, chamando a si o inestimável e desgastante papel de propagar e difundir, de viajar e vigiar, de missionar; mais, de institucionalizar – e, portanto, de materializar – a mensagem vanguardista de 1915, operando e agindo, para esse efeito, sobre a plasticidade da própria vida.

Realmente imparável foi o labor que Ferro desenvolveu, na animação dinâmica do sonho futurista, e na projecção existencial que logrou dar-lhe, possuído, para tanto, de um optimismo realizador tão avassalador e contagiante que bem pode, afoitamente, adiantar-se que o nosso nacionalismo cultural teve, em Ferro, o mais ardoroso de todos os cruzados e o mais combativo e entusiástico lidador de sempre.

Está claro que o seu mentorado instaurou em Portugal “uma verdadeira era de terror no mundo das ideias-feitas” e do lugar-comum – “esse lugar (…) de onde são naturais todos os que me atacam”, comentava ele; “eu tenho um sonho e sou feliz. Eles têm apenas o sono e não podem dormir”. E está bem de ver quem eles são: “embalsamados, balsemões, retardatários, tatibitates, monóculos, lunetas, lorgnons, cegos em terra de reis…” enfim: todos “os etecéteras da vida” e mais alguns pelo meio…

Daí que a personalidade oficial, digamos, de António Ferro, na pele de alto-comissário da propaganda cultural da nação, venha constituindo um excelentíssimo pretexto para relegar o mesmo Ferro, como artista criador, a lugar de secundaríssima ordem, quando não mesmo para o despromover à condição de valor proibido. Todavia, se há livros que se queiram “libertos da vala-comum da estante” e que importe repor em circulação em vista da intacta novidade da sua escrita e da intensa sedução do ritmo mental que os anima – esses serão os livros futuristas de António Ferro, mormente aqueles que pertencem à grande explosão criadora da sua juventude. É, a dele, “uma arte de relâmpago, uma arte que estabelece telegrafia com as almas”, mercê da mais fulgurante apropriação que já algum dia alguém fez da língua portuguesa. Dando carta de livre-trânsito a uma estonteante imaginação verbal, em que o culto do paradoxo é levado ao paroxismo, António Ferro consuma por aí um estilo extremamente apetecível, que com engodo se saboreia, num quase estado de hipnose, dada a estesia extasiante do discurso, a palpitação plástica da imagem, o brilhantismo inebriante do conceito, a desconcertante originalidade da frase. Como diria Rilke, “ce n’est pas de l’écriture, c’est de la respiration par la plume…”

A “Teoria da Indiferença”, o manifesto “Nós”, “A Idade do Jazz-Band”, “A Arte de Bem-Morrer”, bem como o seu escandaloso “Mar Alto” – “menos peça de teatro do que peça de artilharia”: o que se chama uma “peça (…) de fazer fogo” –, “A Amadora dos Fenómenos”, “Batalha de Flores” e essa sua tão frívola como profunda “Leviana”, são obras que respondem em cheio pela inteira fidelidade de Ferro à dimensão modernista e que o creditam como o maior prosador futurista que Portugal produziu.

“(…) a minha época (...) todos os dias passa revista ao meu trabalho”, observou ele, um belo dia.

O nosso tempo só tinha também a lucrar com isso.

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