De regresso ao Kosovo

(Texto traduzido e comentado por Rodrigo Nunes)

O texto que se segue foi escrito pelo Major General Lewis MacKenzie e publicado no jornal canadiano The National Post de 06/04/2004. MacKenzie comandou tropas em Gaza, Chipre, Vietname, Cairo e América Central. Em Sarajevo, durante a guerra civil, comandou os contingentes de 31 nações.

«Há cinco anos as nossas televisões estavam dominadas por imagens de albaneses do Kosovo cruzando as fronteiras para a Macedónia e a Albânia procurando aí refúgio. Relatórios alarmistas diziam que as forças de segurança de Slobodan Milosevic conduziam uma campanha genocida e que pelo menos 100.000 albaneses do Kosovo tinham sido exterminados e enterrados em valas comuns por toda a província.

A NATO entrou em acção e, apesar de nenhum dos Estados membros desta aliança ter sido ameaçado, começou a bombardear não somente o Kosovo mas também as infra-estruturas e a própria população da Sérvia, sem resolução que o autorizasse por parte das Nações Unidas, instância, porém, tão venerada pelos governantes do Canadá, passados e presentes.

Aqueles de entre nós que chamaram a atenção de que o Ocidente estava a colocar-se do lado de um movimento independentista albanês extremista foram acusados de cobardia. Esqueceu-se convenientemente que a organização que combatia pela independência, o Exército de Libertação do Kosovo (UÇK) fora universalmente designado como organização terrorista e conhecido por ser apoiado pela Al-Qaeda de Osama Bin Laden.»

(…)

«Desde a intervenção da NATO e da ONU, em 1999, o Kosovo tornou-se a capital europeia do crime. O comércio de escravos sexuais floresce. A província tornou-se a placa giratória da droga em direcção à Europa e à América do Norte. Para cúmulo a maioria da droga provém de um outro pais “libertado” pelo Ocidente: o Afeganistão. Membros do desmobilizado mas não eliminado UÇK estão intimamente envolvidos no crime organizado e no Governo. A polícia da ONU prende alguns dos implicados neste tráfico e leva-os perante uma justiça permeável à corrupção e às pressões.

O objectivo último dos albaneses do Kosovo é purgar a região de todos os não-albaneses, incluindo os representantes da comunidade internacional, e, por último, fazer a fusão com a mãe Albânia, construindo assim a “Grande Albânia”. A sua campanha começou com os ataques a forças de segurança sérvias no início da década de 90 e conseguiram transformar a resposta musculada de Milosevic em simpatia mundial pela sua causa. O genocídio proclamado pelo Ocidente nunca existiu, os 100.000 mortos pretensamente enterrados nas valas comuns revelaram-se cerca de 2.000, de todas as etnias, incluindo os mortos em combate durante a própria guerra.

Os albaneses do Kosovo manipularam-nos a seu bel-prazer. Financiámos e apoiámos indirectamente a sua campanha para um Kosovo etnicamente puro e independente. Não os condenámos nunca por serem responsáveis pela violência do início da década de 90 e continuamos a retratá-los como vítimas hoje, apesar das evidências em contrário. Quando atingirem o seu objectivo de independência, ajudados pelos dólares dos nossos impostos juntamente com os de Bin Laden e da Al-Qaeda, imagine-se a mensagem de encorajamento que isso constituirá para outros movimentos independentistas do mundo apoiados pelo terrorismo!

É engraçado como continuamos a cavar a nossa sepultura!»

Num sucinto comentário final ao texto chama-se a atenção para três pontos:

1. A facilidade e a eficiência com que se constroem mitos mediáticos em torno de extermínios selectivos de povos para fins políticos. No caso foram os 100.000, noutros casos os números atingem diferentes proporções, em todos eles, porém, essas realidades produzidas transformam-se nas realidades vividas e servem a legitimação de transformações políticas profundas. Tenho a certeza de que se questionados sobre isto a grande maioria dos “ocidentais” repetirá a versão oficializada, e provavelmente será essa a fazer História.

2. A referência às rotas de circulação de droga entre a Ásia e o “Ocidente” (particularmente ópio, heroína e haxixe). Desde que o Afeganistão foi “libertado”, o tráfico aumentou substancialmente. Trata-se obviamente de um dos negócios mais lucrativos do mundo com três rotas preferenciais que saem do Afeganistão. Uma que passa pelo Tajiquistão e liga à Rússia, outra que liga ao Paquistão e, finalmente, uma terceira que passa… pelo Irão e pela Turquia entrando na Europa pelo sudeste.

3. Apesar da relevância do que é dito na entrevista parece-me que existe um erro fundamental de análise quando, por ingenuidade ou boa-fé, MacKenzie parece insinuar que a intervenção “ocidental” foi enviesada por um erro de avaliação do problema da região. É minha opinião que não existiu qualquer avaliação errada da situação e que quem realizou essa intervenção conhecia, na generalidade, os factos. Não há um equívoco do “Ocidente” mas tão-somente a realização da sua estratégia global. Quanto muito haverá uma incompreensão por parte de alguns do que é de facto esse “Ocidente”. Assim, reafirmo que foi uma operação movida por interesses económicos e geopolíticos (entre os quais o cerco à Rússia). De resto note-se simplesmente que são os mesmos que a fizeram que hoje pressionam internacionalmente para a efectiva independência do Kosovo.

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