«A Divisão Azul», de Saint-Loup

Por Manuel Maria Múrias (In A Rua, n.º 202, pág. 20, 24.05.1980)

A aventura dos voluntários espanhóis que, durante II Guerra Mundial, se foram bater contra o Comunismo integrados nos exércitos alemães é, ainda hoje, um dos temas mais controversos do grande drama representado na Europa há quarenta anos. Contra quem se bateram os espanhóis? Por quem se bateram eles?

A tradução portuguesa do livro de Saint Loup «A Divisão Azul», editado pela Ulisseia e integrado na sua colecção «Tropas de Choque» tenta dar-nos as respostas exactas a estas perguntas: os espanhóis combateram o comunismo internacionalista e, como que em cruzada, lutaram por Cristo-Rei. Continuaram assim a sua guerra iniciada em 1936 e que lhes valeram muito mais de um milhão de mortos. Soldados de Cristo procuraram nas estepes geladas da Rússia manter viva a vocação católica e apostólica de Espanha, aparentemente vitoriosa com o alzamiento de 18 de Julho, mas já latentemente derrotada pelo monarquismo vazio de Francisco Franco e pela traição dos Bourbons, que nem por se crismarem Bourbons deixaram de ser estrangeiros.

Nas belas páginas do seu livro, Saint-Loup prova claramente que o nacional-socialismo racista de Adolfo Hitler era quase que completamente estranho às motivações dominadoras da gesta de Divisão Azul. Os espanhóis viram mais alto; de certa maneira tentaram defender a Europa; morreram por todos nós ― e o seu sacrifício não será inútil. O que os separou profundamente do nazismo foi a fé em Cristo, o que os uniu por vezes essencialmente ao povo russo duplamente ocupado por comunistas e nazistas foi a Cristandade.

Ao serem forçados à retirada sentiram-se traídos. A inevitável derrota dos exércitos alemães, envolvendo-os, poderia também significar a derrota da Espanha ― os que, por essa altura, não entenderam o pragmatismo de Franco, já tinham perdido a perspectiva histórica, a árvore escondendo a floresta, o sacrifício próprio abafando martiriologicamente a defesa do interesse nacional.

Admiravelmente traduzido por Zarco Moniz Ferreira, A Divisão Azul é, assim, um livro fundamental para o entendimento perfeito do nosso tempo. Mais: na descrição dolorosa que nos faz dos campos de concentração soviéticos antecede as narrativas trágicas de Soljenitzine. Tudo o que, depois dos prisioneiros espanhóis, Soljenitzine contou, confirma-se angustiosamente. O universo concentracionário que o comunismo gestou é, nessas páginas, uma imensa angústia territorial, qualquer coisa de satânico que nos faz temer, temer e preservar na luta. Qualquer coisa de monstruoso.

Dissolvente da mentira, «A Divisão Azul» é, por isso mesmo, um livro fundamental que vivamente recomendamos aos nossos leitores. Não é apenas uma extraordinária e heróica narrativa de aventuras palpitantes de vida e sacrifício. Não. É um documento histórico de valor inapreciável que bem serve os nossos essenciais objectivos de formação política.

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