Valor dos mitos

(Texto extraído do blogue "Fascismo em Rede")

Desde que a Sociologia e a Politologia contemporâneas – aliás precedidas por precursores de génio como Sorel e Pareto – fizeram o processo da ideologia oitocentista, que se reconhece a importância e o valor politológico dos mitos. Com o estudo desapaixonado dos grandes mitos fundacionais e do seu papel criador, não só nas culturas tradicionais como nas sociedades e Estados modernos, tende a arrumar-se, ao lado de outras velharias, que só numa sociedade em plena regressão intelectual e cultural como é a nossa, podem ser desenterradas e repetidas como ideias novas, a descrição pejorativa desses mitos como “falsidades” ou realidades ultrapassadas.

A mentalidade oitocentista, na sua “meia-cultura” de racionalismo vulgarizador, olhou o “mito” como uma sobrevivência exótica, conto de crianças ou homens primitivos, a sepultar nos arquivos da História linear e utópica que apresentava como alternativa. Ora, pelo contrário, como demonstram exaustivamente autores contemporâneos (v.g. Voegelin, Cassirer) “hoje em dia já não se pode aceitar que o mito não tenha outra finalidade na história humana que não constituir um degrau no caminho para formas mais racionais de simbolização…”; antes tem de se concluir que o mito possui “uma vida e uma virtude em si próprio”, e é mesmo um dos elementos chave em qualquer empresa de criação, renovação ou transformação política.

Assim, nenhuma comunidade sobrevive ou se conserva, sem mitos nacionais identificadores; mitos que podem ser “mitos fundacionais”, como a lenda da Loba para a República Romana ou a Revolução de Outubro para a União Soviética; que podem assentar numa declaração programática como o Preâmbulo da Constituição Americana ou repousar sobre uma guerra originária como a Longa Marcha de Mao-Tsé-Tung para a China Contemporânea, ou a Guerra Civil (“Cruzada”) para a Espanha franquista, mas que sempre encerram o modo como uma comunidade se vê no espelho da História, aquilo que gostaria de ter sido, que é o mesmo que dizer, aquilo que quer ser.

Aliás, a destruição de uma sociedade começa pela negação dos seus mitos fundacionais ou programáticos, já que uma comunidade nacional não pode sobreviver sem crenças colectivas e duradouras que preservem a sua diferença e individualidade perante as demais. Bastaria analisar, entre nós, a obra de destruição cultural dos grandes mitos nacionais, realizada pela esquerda nos anos sessenta e setenta, destruição que acarretou a perda de auto-defesas tão notória no período pré-revolucionário para se compreender a força e o valor dos mitos na esfera do político.

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