A Direita Ideal

Por Vintila Horia

É imprescindível fazer compreender às pessoas que a Direita actual – a que se está formando neste momento na França, na Itália e noutros países – não tem nada que ver com o fascismo ou com o nacional-socialismo, e que continuamos a chamar-lhe Direita por oposição às doutrinas da Esquerda e não pela novidade positiva que traz consigo.

Com efeito, tanto o fascismo mussoliniano como quase todos os grupos e doutrinas da Direita do princípio do século estavam apegados à realidade ideológica do século passado, e neste sentido entroncavam, embora de maneira diferente, com o materialismo e com alguns matizes da Esquerda. Hoje, em troca, enquanto a Esquerda continua a ser marxista, e tributária das filosofias e ciências de Oitocentos, aquilo a que eu chamo “Direita ideal” encontra-se nos antípodas de tudo quanto é forma mental do passado.

A leitura do livro “Vu de droite”, publicado há pouco por Alain de Benoist, trouxe-me à memória a minha própria luta em torno do novo conceito da Direita. Desde 1970, depois de ter publicado a minha “Viagem aos Centros da Terra” e encontrado uma série de cientistas europeus e americanos, pude observar a relação que se podia estabelecer entre os últimos êxitos, certamente revolucionários, da ciência contemporânea, e aquilo a que chamei então uma “destra ideale”. Digo-o em italiano porque foi na Itália, numa série de conferências, artigos e entrevistas, pronunciadas e publicados entre 1971 e 1977, que tratei de definir a Nova Direita segundo aquilo que a respectiva ciência e filosofia me haviam ensinado.

Foi então que me dei conta de que a física contemporânea, com o seu conceito de individualidade, extraído da lei da incerteza, com a sua busca de um Criador nas origens da matéria; de que a nova psiquiatria, com o novo rumo que Jung lhe dava, opondo alma e psique, religião e ateísmo; de que a própria literatura, desde Joyce a Musil, desde Broch, Kafka e Unamuno até Thomas Mann e Ernst Jünger – constituíam um imenso corpo de doutrina oposto a todo o ensino materialista, ou determinista, ou positivista, ou seja o que for, tristes heranças do século passado, desquitadas de todos os modos e de todas as formas de pensar e de criar dos novos tempos, do meu próprio tempo.

Nas longas entrevistas que tive nessa altura com os dirigentes da Direita italiana, tentei em vão persuadi-los de que eles se encontravam não numa retaguarda vacilante, mas sim na vanguarda do pensamento contemporâneo e da prática política, mas que tinham de fazer um mínimo esforço: abandonar as tradições e técnicas do seu movimento, demasiado relacionadas com o passado (e neste sentido parecidas com as da Esquerda) e irromper na actualidade com novas ideias na mão. Todos me diziam que sim, mas, como dizem também os italianos, “fro il dire e il fare c'è in mezzo il mare” – “entre o dizer e o realizar há no meio o mar”…

E eis como, no meio dum clima favorável e numa atmosfera muito propícia, no meio duma Itália destroçada pelo pensamento marxista e pela fatal aliança do Centro com a Esquerda, a Direita se foi abaixo em poucos anos, quebrando-se recentemente em dois troços, por ser incapaz de assimilar a lição de contemporaneidade dos avanços científicos. A minha Direita ideal ficou em águas de bacalhau, e os que não me deram ouvidos ficaram no mesmo sítio.

Mesmo assim, as arestas da nova doutrina já se estão perfilando no Mundo com uma clareza cada vez mais impressionante. O livro de Alain de Benoist dá conta da mesma história que delineio em tudo o que escrevi desde 1970 até hoje. Os próprios pensadores comunistas abandonam o Partido e, o que é mais grave, a própria doutrina, por terem compreendido que o que aniquila os dois, partido e doutrina, é precisamente a evidência com que a popularidade dos princípios científicos actuais abre um verdadeiro abismo entre tudo o que é Esquerda e tudo o que é sentido de contemporaneidade. O acento que de maneira tão parcial deixam cair certas Esquerdas sobre o ecológico e as vantagens que pensam sacar dos perigos da contaminação não conseguem esconder a outra contaminação. As ideologias baseadas na ciência materialista do século XIX vão-se abaixo, contaminadas pela sua própria inactualidade.

É verdade que as ideias da nova ciência andam no ar desde há meio século, e até mais; mas só hoje começamos a ter consciência da sua esmagadora presença, contradizendo, repito, tudo o que a ciência do passado tinha cogitado em torno da matéria, física e biológica, e experimentado com ela. Desde as viagens no espaço à bioquímica, toda uma nova perspectiva se está abrindo diante dos nossos olhos, e dentro dela não cabe nenhuma das ideias que partem doutra ciência. O drama dos cientistas soviéticos põe em relevo este tremendo descalabro: quem ali sustenta a novidade – novidade essencialmente antimaterialista, ou seja antimarxista – tem de desaparecer nos campos de morte estalinianos e nos Gulagues, ou, mais recentemente, nas clínicas psiquiátricas. Os chamados dissidentes e opositores não fazem mais do que tratar de fazer rimar, na Rússia e no espaço que ela domina, o novo com o político, enquanto a Polícia, último argumento de Brejnev, continua a argumentar como pode.

Na própria China, menos apegada à tradição revolucionária materialista do que a Rússia, o peso da revolução está a desmoronar-se sob o peso da necessidade, quer dizer, do científico. É por isso que todos os intelectuais se encontram hoje na oposição em todo o espaço soviético, e só no Ocidente continuam, encerrados numa tremenda ignorância ou num não menos tremendo oportunismo, a antiga linha do inactual. Com a diferença de que no Ocidente, onde não há campos de concentração, ninguém é castigado pelas suas crenças.

Algo de curioso se está assim a formar no Mundo. Os que se julgavam revolucionários aparecem como penosas retaguardas, acorrentadas a preconceitos e antigualhas, enquanto os que se relacionavam com o tradicional, com o religioso ou o metafísico estão a brindar à pobre humanidade, cansada de guerras inúteis, de falsas revoluções e de mentiras televisivas, uma possibilidade de salvação. Ou, pelo menos, uma ocasião para tornar a encontrar-se com a verdade.

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