Intervenção Nacionalista

Por «Camisa Negra»

Em Junho de 1980, através de um comunicado enviado aos jornais, deu a conhecer a sua existência uma nova organização política, a “Intervenção Nacionalista”.

A comissão organizadora então designada era constituída por Armando Costa e Silva, Goulart Nogueira, Rodrigo Emílio e Walter Ventura, e estava encarregada de “promover os trabalhos necessários para estruturar e constituir o Movimento”.

Como coordenadores dos diversos departamentos ficaram nomeados Abel Tavares de Almeida, António José de Brito, António Paulo Ruckert Moreira e Caetano de Mello Beirão.

No seu manifesto a “Intervenção” declarava com ênfase “rejeitar qualquer fórmula que, ao sabor do falso realismo, se traduza em comprometer os princípios e em sacrificar os objectivos últimos, na mira de sucessos tácticos necessariamente precários ou de resultados inevitavelmente ilusórios, como é o caso da chamada “Frente Nacional”.

Com clareza ficava assim à vista o que tinha sido o detonador próximo desta intervenção: a “Frente Nacional”, tentativa também ela efémera de organizar o espaço à direita do regime e que tinha sido posta em marcha no ano anterior (houve eleições parlamentares em Dezembro de 1979), com orientações que chocaram o sector doutrinariamente mais intransigente do nacionalismo português.

Nota-se aliás a semelhança da situação com a existente em 1974 com o Movimento Federalista Português, em que essencialmente a mesma gente que fundou em 1980 a “Intervenção Nacionalista” tinha então criado o “Movimento de Acção Portuguesa” – também em nome do combate ao confusionismo ideológico e à cedência doutrinária em que seguiam antigos companheiros de percurso.

Do que foi este debate não vou fazer aqui o relato – assinalando apenas que Manuel Maria Múrias empenhou-se particularmente em apoiar o projecto da Frente Nacional, mobilizando para isso o semanário “A Rua”, enquanto outros sectores, como os jovens do Movimento Nacionalista, então dirigido por Vítor Luís, Nuno Rogeiro e Luís Andrade, rejeitavam essa via que reputavam de eleitoralista e oportunista.

A “Intervenção Nacionalista” apresentou-se ainda ao país em conferência de imprensa no dia 10 de Julho de 1980, promovida pelo Movimento Nacionalista mas que acabou por ser conjunta, reafirmando aí as suas teses.

O movimento viria a ter vida curta, não chegando a abrir sede ao público. Como se verifica dos seus folhetos de divulgação indicava para qualquer contacto a Rua Costa Pinto n.º 42 em Paço d’Arcos, que era a residência do saudoso Caetano Beirão (meu querido e inolvidável descobridor de tartéssios, infatigável cata-cacos da arqueologia do sul).

Viria também a utilizar por cedência de favor um andar na Rua António Enes, perto da maternidade Alfredo da Costa.

Cito um trecho do boletim da Intervenção:

“Um país que tudo perdeu não pode ter uma política externa conservadora, pronta em favorecer a estabilização internacional, apressada em submeter-se às situações criadas e em ceder aos poderes de facto.

Não nos interessa a manutenção do mapa, mas sim que ele seja recomposto. Não nos interessa o fortalecimento dos poderes tais como estão, mas sim que se desentendam sobre os despojos.

Da agitação e da mudança, Portugal pode obter algo ou não. Se as coisas se alterarem, poderá surgir alguma via de regresso ou não haver. Existe uma possibilidade positiva. Mas da acalmia e da aceitação resignada é que nada temos a esperar.

A realidade e o facto são dados. Existem diversas maneiras de os encarar, de agir sobre eles e de mover-se entre eles.

Realismo é, às vezes, um nome falsamente invocado para o acto de quem é curto de vista; outras vezes, redução a um modo cómodo; outras, um álibi”.

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“Uma aposta no Homem Português, na sua tentação de grandeza e na sua vocação de responsabilidade” – assim se apresentava a «Intervenção Nacionalista», no final de Abril de 1980, no seu primeiro texto público, em que se dava a conhecer como movimento em vias de constituição.

Desse manifesto constavam também as assinaturas dos oitenta primeiros militantes, os fundadores. Ao reler hoje a lista noto o pormenor curioso da forte presença do Instituto Superior Técnico (para além dos já então históricos nessas andanças). Mas quem não conhece fica sem conhecer…

Na sequência de anterior referência já feita aqui a esse movimento, e sobretudo por se afigurar relevante registar, mesmo que só para a história, as afirmações e os subscritores, segue-se o que acabo de mencionar – sem crítica nem julgamentos, que seriam aqui pretensiosos e descabidos…

«ASSINAM: Perante o imobilismo e o acomodamento, a descrença, a transigência, o confusionismo e a corrosão que invadem as gentes portuguesas e começam até a ameaçar os redutos mais puros, algumas pessoas de diversas origens, idades e condições consideram urgente formar um movimento que se designou “INTERVENÇÃO NACIONALISTA” e se destina a congregar esforços para a restauração da grandeza nacional.

“INTERVENÇÃO NACIONALISTA” é:

- Uma ordem militante de portugueses, iguais na dureza da sua exigência moral e unidos na intransigência do seu nacionalismo;
- Um movimento de inteira solidariedade e camaradagem, cuja honra é fidelidade;
- Uma comunidade de luta independente, de crítica serena e fria, impiedosa e sem equívoco;
- Uma comunidade de convívio, exclusiva de uma certa qualidade de homens – intransigentes, capazes de amizade e de desprezo;
- Um desafio ao conformismo fácil das revoltas e ideologias dominantes e um repúdio da habilidade sistemática dos interesses feitos ideias e da política feita demagogia, mentira e traição;
- Um grupo de pensamento rigoroso e acção eficaz e duradoura;
- Uma aposta no Homem Português, na sua tentação de grandeza e na sua vocação de responsabilidade;
- Um estilo de vida, uma concepção do Mundo, uma filosofia de acção;
- Uma recusa definitiva das superficiais coerências e das falsas hierarquias;
- Um acordo profundo de homens livres, unidos fraternalmente no amor da Terra e na lealdade ao sangue.

Alberto Carlos Dionísio Coelho, Alberto Pedro Maia Trindade, Alexandre I. Canelhas, Amílcar G. Gonçalves. António José de Almeida, Dr. António José de Brito, António José Oliveira Martins, António Manuel Ferreira, António Manuel Monteiro, António Miguel Rodrigues da Silva, António Vasco Meneses, Dr. Armando Costa e Silva, Arnaldo Gomes, Bernardino Margalho Soares, Dr. Caetano de Mello Beirão, Carlos Costa, Carlos Manuel Baptista Simões, Cristina Aguiar Câmara, Diogo Ferreira, Domingos G. Leal, Edgar Emanuel Azevedo, Eduardo J. Ramos Filipe, Eduardo Lopes, Eduardo Quiñones da Silva Pereira, Eurico Lima, Filomena Duarte Conde Agostinho, Fernando B. Andrade Gomes, Fernando L. Ferreira, Francisco T. Bastos, Graça Aguiar Câmara, Goulart Nogueira, Isabel Aguiar Câmara, João Aguiar Câmara, João Henrique Sacadura, João José Santos Pereira, João M. Gaivão, João Paulo Bilé Serra, João V. Monteiro, Joaquim Valente, Jorge Chambel da Fonseca, Jorge Manuel Osório Gomes, Jorge Mota, Jorge N. Rocha, José António Cunha e Costa, José Rebordão Esteves Pinto, José Alves Diollo, José Carlos Silva, José Frederico Prazeres, José Manuel Ferreira, José Manuel Monteiro, José Manuel Santos Costa, José Rafael Rebelo Espírito Santo, Júlio Dâmaso, Lúcio da Costa Rodrigues, Luís Aguiar Câmara, Luís F. Nascimento, Luís Forjó, Luís Pedro Correia, Luísa Aguiar Câmara, Manuel Gil Botto, Maria Teresa Barreto Soares, Mário Dias de Almeida, Miguel Abranges Pinho, Miguel Angelo Ferreira, Nelson Dias de Almeida, Nuno Luís da França Duarte, Paulo Brito, Paulo Sérgio Guimarães Silva, Pedro J. Nunes, Pedro Manuel Lima, Pedro Pimenta Valentim, Pedro Pree, Preciosa Miranda Maio, Porfírio Maio Agostinho, Rodrigo da Costa, Rodrigo Emílio, Rodrigues de Brito, Sebastião D. Garão, Vítor Ferraz, Vítor Hugo Rodrigues, Walter Ventura e Dr. Zarco Moniz Ferreira.”

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