Léon Degrelle - Encontros com Brasillach

(Entrevista realizada por S. E. Norling Plahn, em 30 de Janeiro de 1991, publicada em Révision, nº 4, vol. IV, 1992)

De todos os políticos fascistas que Brasillach estuda na sua afanosa busca do protótipo perfeito do líder que pudesse encabeçar a Revolução Fascista, Léon Degrelle foi quiçá o que se aproximou à concepção de Brasillach do que deveria ser o Homo Fascistus (1). Brasillach visita várias vezes o líder valão entre 1934 e 1935, mostrando um interesse vivo pelo Movimento Rexista, que estava avançando a passos gigantescos para o poder por vias democráticas. Nas páginas de Je Suis Partout Brasillach e os seus colaboradores não cessavam de aclamar Degrelle como o líder que esperavam. Tal como a Alemanha tinha Adolf Hitler ou a Itália Mussolini, a França e a Bélgica tinham Degrelle. Em Outubro de 1936 consagraram-lhe um número especial da revista e em Dezembro Brasillach publica o seu Léon Degrelle et l’Avenir du Rex, composto na sua maior parte por uma recompilação dos seus artigos jornalísticos em torno do grande líder valão (2). Por tudo isso, o político valão é quiçá uma das vozes mais autorizadas para descrever-nos o Brasillach político e jornalista á vez, posto que, tal e como afirmámos, conheceu-o pessoalmente.

P: Quando e como se deu o primeiro encontro entre si e Brasillach?

R: Conheci-o muito bem. Brasillach era muito jovem nos tempos heróicos do Rexismo (3), aquando da grande campanha eleitoral que nos daria a vitória. Veio assistir aos meus meetings e acompanhou-me no automóvel durante uma semana. Há descrições muito bonitas dos meus meetings e das minhas conversas com ele, onde explico o que é um país; como se faz uma Pátria; explicava-lhe tudo isto no automóvel quando regressávamos durante a madrugada depois de dois ou três meetings, eu sentado no automóvel com o chauffeur ao meu lado e ele atrás. Explicava-lhe a minha concepção da vida social e como se realizavam os meetings, por exemplo, o grande meeting de Namur. Depois disto, sempre mantivemos relações.

P: Supomos que foi o seu colaborador Pierre Daye, correspondente de Je Suis Partout na Bélgica desde 1932, que os apresentou. Se não, quem foi o artífice do seu primeiro encontro com Brasillach?

R: Ele era grande amigo de Pierre Daye, então deputado para as eleições. Conheci-o em casa dele. Víamo-nos muito em casa de Pierre mas, logo de seguida, converteu-se num assíduo dos meus meetings. Vinha muito a minha casa. Fizemo-nos muito amigos (4).

P: Qual foi a primeira impressão que teve do jovem jornalista e escritor francês?

R: A cara redonda; olhos negros, redondos; era um catalão, o tipo de catalão caloroso; meridional francês, alimentava-se da inspiração política. Não seria bonito, mas era encantador; tinha dotes que poucas pessoas possuem.

P: Em Outubro de 1936 é-lhe consagrado um número especial do jornal do seu Movimento. Recorda-se?…

R: Recordo-me, sim. Só na Bélgica, venderam-se cem mil exemplares desse número que, além de grandes fotos minhas, incluía um artigo escrito por mim. O director, Pierre Gaxotte, estava plenamente comigo nessa época, embora fosse um francês típico, um nacionalista francês que não via outra coisa que a França. Quando a França se rendeu em 1940, separou-se da causa. Era um grande escritor e sacrificou-se para publicar o semanário.

P: Brasillach sempre procurou o Líder Fascista — com maiúsculas — que pudesse representar a área francófona, visto que o panorama na França era deprimente. Jacques Doriot ou Marcel Bucard nunca obtiveram a admiração de Brasillach. Crê que Brasillach gostaria de fazer passar o Rex para a França?

R: Sim, comentou isso várias vezes. Era o desejo deles. Eu sou filho de franceses. A minha família viveu na mesma aldeia durante mais de quatro séculos, nasceram 288 Degrelle na mesma casa, gente sempre fiel à França. Foi uma fatalidade ter nascido a três quilómetros da fronteira francesa. Tudo podia ter mudado… Fizemos uma edição do jornal Rex para a França, mas o Governo francês da Frente Popular proibiu-o. Muitos franceses vinham aos meus meetings quando eram realizados perto da fronteira; em todos eles havia centenas de franceses. Eu tinha nascido na Bélgica e procurava conquistar o povo belga. Mas se tivesse nascido francês, tudo teria sido diferente. Não teria havido guerra! Eu tinha grandes amizades entre a imprensa influente da direita francesa. Escrevia no Gringoire (5), que tinha uma tiragem de 700.000 exemplares semanais. Ganhava mais a escrever neste semanário do que como chefe do Rexismo! Se eu tivesse tido a França nas minhas mãos…

P: Quando estalou a guerra, foi detido e levado para França. O mesmo aconteceu com Brasillach, preso pelos alemães. Teve oportunidade de vê-lo em 1940?

R: Ele estava preso na Alemanha por coisas que tinha escrito contra Hitler, como “Hitler está louco” e outras semelhantes, e eu tive que actuar com força junto do Embaixador alemão em França, Otto Abetz, grande amigo meu, para conseguir a libertação de Brasillach. Na realidade, libertei-o pela minha intervenção pessoal. As minhas relações com Abetz eram muito boas depois que o conheci em Berlim. A sua mulher era francesa, companheira de colégio da minha. Tínhamo-nos relacionado até esse ponto. Logo depois de eu ter sido libertado em 1940, convidou-me para a sua residência particular em Paris. Em várias ocasiões mandava o automóvel particular a Bruxelas para me levar a Paris e discutir o futuro da Bélgica. Tinha grande influência sobre Abetz… Bom, foi assim que Brasillach regressou, tendo tido, durante dois anos, um papel relevante na Colaboração (6).

P: Esteve com Brasillach noutras ocasiões?

R: Duas vezes mais. Depois de 1940, quando visitei amigos em Paris para despedir-me e, outra vez, quando voltei de Tcherkassy em 1944 (7) e me convidaram para um meeting em Paris no Palácio Chaillot. Brasillhach, já afastado da política, veio ouvir-me. Foi a última vez que o vi.

P: Como interpreta a desilusão de Brasillach depois de 1943?

R: No fim de 1943 sentiu-se desmoralizado. Há que dizer que havia na França motivos de desilusão, dadas as disputas violentas entre os nacionalistas. Havia Doriot; havia Déat; Bucard e também o coronel De La Rocque, que se tinha passado para a “Resistência”. Havia Darnand, tio da minha mulher. Brasillach foi apenas rexista, nada mais. Nunca teve a menor relação com a “Resistência” e ficou em França em 1944, demonstrando a maneira de defender a sua concepção do patriotismo francês (8). Estava desgostoso ao ver que não havia futuro para a França. Pressentiu que o esforço era inútil, pois inclusive Abetz, que o apoiava, estava a ceder. A França tinha grandes possibilidades mas faltava-lhe um chefe carismático. Pétain não passava de um pobre velho. Na Bélgica tivemos o mesmo fenómeno de desilusão de certos intelectuais, sobretudo depois do Cáucaso (9). Um dos meus melhores colaboradores, Joseph Streel, “o nosso Brasillach”, homem de grande valor que tinha escrito obras importantíssimas, também nos abandonou em 1943 e, embora permanecendo na Colaboração, saiu do Rexismo. Enquanto nós tínhamos uma visão europeia, alguns belgas só pensavam em salvar a Bélgica. A ter pugnado pelo Ocidente, não se teria ficado no abstencionismo, como Brasillach… Se tivéssemos ganho a guerra, tê-lo-ia convencido a continuar connosco. Era um homem valente. Morreu quando se entregou para salvar a sua velha mãe, encarcerada de maneira cruel. Morreu pela sua Pátria.

P: De todas as obras de Brasillach, qual a que mais o impressionou?

R: O mais emocionante é Poèmes de Fresnes. Fala das inscrições dos que estavam presos no tempo dos alemães e do que lhes aconteceu na prisão, como são irmãos, fenómeno muito típico das prisões, essa fraternidade entre presos. Lembro-me de quando estive preso em 1940, junto com os comunistas… na Ilha de Ré, com os deputados comunistas franceses detidos. Depois, estive no campo de concentração de Vérnet, perto dos Pirinéus espanhóis, onde me fecharam no barracão dos comunistas espanhóis pensando que estes me atacariam. Nada disso aconteceu. Há uma fraternidade entre os presos… e foram eles que melhor me compreenderam. Comportaram-se sempre como verdadeiros camaradas. Nem um insulto ou uma palavra desagradável para mim… Todos éramos idealistas.

P: E quanto à germanofilia de Brasillach?

R: Brasillach era um homem enamorado da Alemanha. “Deito-me com a Alemanha”, dizia-me sempre. Mas era um poeta, via na Alemanha um país maravilhoso e gostava da música alemã… Wagner, Bayreuth… Tudo o animava quando ia aos meetings de Nuremberga, às semanas do Partido. Todos aqueles jovens regressavam com o espírito exaltado, o que não significava que não fossem bons franceses. Quando a guerra chegou, Brasillach foi para a Frente como tenente, tendo até escrito textos muito severos contra os alemães, onde afirmava que eram loucos. Era mais francês que nacional-socialista, o contrário de nós que éramos mais nacional-socialistas que belgas… Muito belgas sim, mas nacional-socialistas. A Europa era a única Comuna para o futuro de todos. Ele era um herói francês. Brasillach tinha conhecido a Alemanha que, para ele, era um mito. Deitava-se com a Alemanha, talvez, embora a sua mulher fosse a França…

P: E quanto à sua paixão por Espanha? Que nos pode dizer?

R: Era muito falangista. Não devemos esquecer que entre o Falangismo de José António e o Rexismo havia um espírito de grande fraternidade. Eram os que mais se pareciam. A única diferença era que José António, embora poeta também, começou demasiado tarde. A república tinha chegado e o povo estava demasiado à esquerda, era demasiado tarde para conquistar as massas populares. Não devemos esquecer também que grande parte da cultura francesa teve as suas fontes em Espanha. É uma velha tradição francesa apesar das guerras de Napoleão. Há livros preciosos que beberam em fontes espanholas. Por exemplo, Victor Hugo cantou a glória de Espanha. Os espanhóis, ao contrário, sempre negaram os livros do exterior, comportaram-se com exclusivismo, não admitem de um estrangeiro a menor reserva. Os espanhóis sentem um certo desprezo pelo estrangeiro. Brasillach era de raça espanhola, era catalão. Muitos autores inspiraram-se aqui, mais que na Itália e mais ainda que na Alemanha, nunca compreendida pelos franceses que sempre olharam os alemães como prussianos, primeiro, e “boches” (10) depois. A mim sempre a Espanha impressionou, e desde que aqui vim a primeira vez de férias com os meus pais. Conheci José António antes da guerra. Sou um velho falangista, membro da Falange do exterior desde 1934. Trocávamos muita correspondência. Era um movimento de pouca gente, no início. Mais tarde, tiveram o povo com eles mas já era demasiado tarde. A Espanha nacionalista foi totalmente apoiada pela “direita” francesa, com excepção de Mauriac e Bernanos, como contraposição à Frente Popular que governava a França. O mesmo aconteceu na Bélgica.

P: No que diz respeito aos camaradas de Brasillach, aos intelectuais da Colaboração, como os interpreta?

R: Eram todos camaradas, Drieu La Rochelle e os outros. Tinha uma grande amizade por todos eles. Reuníamo-nos muito em Paris. Era o ano de 1940, havia que ver a fraternidade existente entre eles. Eram iguais a nós, os rexistas. Não iguais aos políticos fascistas franceses da época, como Laval e companhia. Déat era um antigo ministro socialista; Doriot era um antigo comunista; todos pertencentes ao velho regime, verificou-se que não tinham um chefe verdadeiro quando chegou a campanha da Rússia. Deviam ter feito o mesmo que eu fiz, ir à Frente para, dessa maneira, poderem falar com os alemães de igual para igual e, assim, restabelecer o equilíbrio entre os vencedores e os vencidos. Por essa razão, justamente, fui como soldado raso. Mas eles procederam de outra maneira.

P: Pode descrever-nos a sua impressão pessoal de ter vivido com Brasillach? De como teria ele influenciado a literatura europeia do pós-guerra se se tivesse imposto a Nova Ordem na Europa? Qual teria sido o papel dos intelectuais como Brasillach? Um contrapeso do espírito alemão, com o romantismo latino?

R: Era indispensável que os intelectuais do grupo de Brasillach, Drieu, etc., trouxessem a sua magia à Nova Ordem europeia. O importante era serem intelectuais puros, já que não tinham ambições de poder. Aos grandes chefes de povos interessam as massas com os intelectuais sem ambições políticas. Não teria passado pela cabeça de Brasillach vir a ser deputado. Nem pela de qualquer um dos outros da sua equipa, pela de Drieu menos ainda. Dariam o espírito, a elevação intelectual, sem comprometer o trabalho da luta política. Esse é o problema dos falsos intelectuais, dos pequenos advogados, dos ambiciosos que anseiam o poder. Ao contrário destes, todo o mundo do Je Suis Partout era um mundo intelectual da mais alta qualidade. Não há nada parecido na França de hoje. Na “direita” de Le Pen (11) não há nenhum intelectual desse nível. Há alguns que escrevem bem mas… A França tinha muitas possibilidades, grandes intelectuais que apoiaram políticos franceses como Doriot, que na sua L’Emancipation Nationale (12) tinha Drieu La Rochelle e gente assim, mas…

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NOTAS:

1. Evitamos oferecer mais pormenores sobre a personalidade de Léon Degrelle, bastante conhecida, supomos, dos nossos leitores. Não obstante, a fim de conhecer bem a sua trajectória vital e política, aconselhamos a leitura da magnífica entrevista que, à maneira de biografia, foi publicada em livro (Léon Degrelle. Firma y rúbrica).
2. Para mais esclarecimentos sobre a revista Je Suis Partout, veja-se a obra de Pierre-Marie Diudonnat, Je Suis Partout, La Table Ronde, Paris.
3. Veja-se Léon Degrelle. Firma y rúbrica.
4. Pierre Daye, nascido em 1892 e falecido em Buenos Aires em 1960, foi um escritor e jornalista belga de renome, correspondente de numerosos órgãos da imprensa francesa e, a partir de Janeiro de 1932, de Je Suis Partout. Deputado pelo Rex entre 1936 e 1939, era o porta-voz do seu grupo parlamentar. Durante a ocupação alemã foi Comissário do Desporto e activo “colaboracionista”. Condenado à morte à revelia em 1946.
5. Gringoire foi um dos semanários mais escandalosos e agressivos da época do pós-guerra, de clara tendência conservadora e anticomunista. A sua popularidade era imensa, com tiragens de centenas de milhares de exemplares.
6. Por Colaboração entende-se o movimento social, político e intelectual que considerou que colaborando com as autoridades e tropas de ocupação alemãs se evitariam males maiores para os países ocupados. Portanto, nem sempre se deve interpretar um “colaborador” como um militante fascista ou como mero simpatizante fascista.
7. Em Fevereiro de 1944, tiveram lugar uma série de ferozes combates defensivos e de retirada em volta do que se passou a conhecer como Bolsa de Tcherkassy, na Ucrânia. Dos 54.000 homens do Exército alemão que inicialmente combateram no sector antes do famoso cerco, 10.000 morreram em combate. No entanto, durante o cerco, outros 14.000 morreriam, desapareceriam ou seriam feitos prisioneiros pelos soviéticos. Muito poucos destes conseguiram sobreviver. No meio de tudo isso, quase milagrosamente, depois de três semanas de cerco infernal, o então capitão Léon Degrelle à cabeça de um punhado de sobreviventes da Brigada de Assalto SS Voluntários Wallonie, composta por voluntários rexistas, e uns 3.000 soldados sobreviventes alemães, lograria salvar o que parecia um cerco indestrutível e conduzir estes homens à liberdade. Por tal epopeia foi promovido e condecorado novamente, desta vez pelo próprio Führer. Fundamentalmente, contribuiu de modo decisivo para ganhar, uma vez mais, uma enorme popularidade, exemplo personificado e nobre do Ideal Fascista.
8. Quando nos finais do verão de 1944 as tropas aliadas avançavam para Paris, a maior parte dos colaboradores mais conhecidos retirou-se com as tropas alemãs. Brasillach decidiu ficar em Paris, o que viria a custar-lhe a vida.
9. Depois da campanha do Cáucaso em 1942, com Estalinegrado e os reveses alemães, dá-se a passagem da Divisão Wallonie às Waffen-SS.
10. Expressão depreciativa dos franceses relativamente aos alemães.
11. Refere-se ao político francês Jean-Marie Le Pen, chefe do movimento político Front National.
12. Órgão de imprensa do movimento de Doriot, o Parti Populaire Français.

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