Catedrais de Luz

Por Robert Brasillach (em «Les Sept Couleurs»)

Uma tarde, do grande hotel de Nuremberga, admirávamos com êxtase grupos de SA em uniforme castanho iluminados apenas pela luz dos archotes que passavam debaixo das nossas janelas. Para isso, fizeram-nos subir amavelmente ao quarto de Goering. Alguém imaginará um serviço de ordem a emprestar o quarto de M. Chautemps para ver o desfile do 14 de Julho? Os alemães achavam isto muito natural e não mostraram qualquer preocupação, a não ser quando uns brincalhões quiseram pregar a partida de dobrar a meio os lençóis da cama do general.

Mas é noutro lugar que o Congresso vai atingir a sua potência mais rutilante.

No Zeppelinfeld, fora da cidade, foi construído um estádio imenso naquela arquitectura quase micénica tão querida ao III Reich e a que este soube dar grandeza. Nos degraus podem sentar-se cem mil pessoas, no recinto duzentas ou trezentas mil. Os estandartes da cruz gamada estalam e brilham sob um sol faiscante.

Eis que chegam os batalhões de trabalho. São os homens dos «Arbeitskorps» em fileiras de dezoito, música e bandeiras à frente, pás ao ombro. Saem do estádio e voltam a entrar seguidos pelos chefes do serviço de trabalho, torsos nus, e, logo depois, pelas raparigas. Apresentam-se as pás. Vai começar a missa do trabalho.

«— Estais prontos para fecundar a terra alemã?
— Estamos prontos.»

Cantam, os tambores rufam, evocam-se os mortos, a alma do Partido e a da nação confundem-se e, por fim, o Mestre solda esta multidão enorme num ser único e fala. Foi quando o estádio se foi esvaziando lentamente dos seus oficiantes e espectadores que começámos a compreender o que é a nova Alemanha.

No entanto, iríamos compreendê-lo melhor ainda no dia seguinte, na cerimónia singular que tem o nome dos chefes políticos («Politischen Leiter»).

É noite. O estádio imenso é iluminado apenas com alguns projectores que deixam adivinhar os batalhões maciços e imóveis das SA vestidos de castanho. Entre as suas fileiras, os espaços foram bem demarcados. Um deles, mais largo que os outros, forma uma espécie de avenida que vai da entrada do estádio à tribuna, por onde passará o Führer. São exactamente 8 horas quando ele entra seguido do seu estado-maior e atinge o seu lugar no meio do ribombar das aclamações da multidão. Os que gritam mais alto são os austríacos. Voltaríamos a vê-los nas outras paradas e a ouvir a sua interjeição ritmada: «— A Áustria saúda o Führer!»

Os bávaros sorriem, voltam os olhos para as tribunas diplomáticas, aplaudem. Um dos nossos camaradas, acabado de regressar da Áustria, fala-nos dos sucessos dos nazis.

«— Diante de vinte pessoas que não emitiram o menor protesto, diz-me ele, ouvi um homem chamar pelo cão. Sabe que nome lhe deu? Dolfuss!»

Depois da chegada de Hitler, a multidão deixa de pensar e não deseja senão inebriar-se com tantos esplendores pagãos. No momento preciso em que entrou no estádio, em toda a volta do recinto, apontados verticalmente, acenderam-se no céu mil projectores. São mil pilares azuis que o rodeiam, formando como que uma caixa misteriosa. Brilharão toda a noite no campo aberto, designando o lugar sagrado do mistério nacional. Os organizadores deram a esta soberba «feérie» o nome de «Lichtdom», catedral de luz.

Eis agora o Homem, de pé na sua tribuna. Desfraldam-se os estandartes. Não se ouve um único canto, o menor rufar de tambores. Reina o silêncio mais extraordinário, quando à entrada do estádio, diante de cada um dos espaços que separam os grupos castanhos, aparecem as primeiras fileiras de porta-estandartes. A única luz é a da catedral irreal e azul, atrás da qual se vêm borboletear mariposas, aviões talvez, ou simples poeiras. Sobre os estandartes pousou o foco de um projector que realça a sua massa vermelha e os segue à medida que avançam. Mas avançam, porventura? Somos tentados a dizer que correm, que correm irresistivelmente, como um derramamento de lava púrpura em enorme e lento deslizar que enche estes canais abertos no granito castanho. Dura perto de vinte minutos o seu avanço majestoso e só quando chegam perto de nós ouvimos o ruído surdo dos passos. Até ao minuto de se imobilizarem junto do Chanceler, que está de pé, apenas o silêncio reinou. Um silêncio sobrenatural e telúrico, como num espectáculo de astrónomos de outro planeta… Sob a abóbada raiada de azul até às nuvens, as extensas torrentes vermelhas estão agora imobilizadas.

Não vi em toda a minha vida espectáculo mais grandioso.

No final, quer antes, quer depois do discurso de Hitler — que transformou a multidão silenciosa numa esteira de braços estendidos e gritos — canta-se o «Deutschland über alles», o «Horst Wessel Lied», aonde paira o espírito dos camaradas mortos pela frente vermelha e pela reacção… E também o canto dos soldados da guerra:

«Eu tinha um camarada
Não terei outro melhor…»

Depois, outros cantos ainda compostos para o Congresso, que facilmente se casam com a noite fresca, com a solenidade da hora, com estas belas vozes profundas e múltiplas, com todo o encantamento musical, sem o qual a Alemanha não teria concebido religião, nem pátria, nem guerra, nem política, nem sacrifício.

Durante as horas que passei neste país surpreendente, mais longe de nós, talvez, que o mais longínquo Oriente, tive bastantes vezes ocasião de me entristecer por não recordar sempre todos os minutos do espectáculo. Tudo aquilo não é coisa vã, é algo muito significativo. Funda-se numa doutrina, numa inteligência, numa sensibilidade, e estes espectáculos grandiosos estão ligados a uma representação do mundo, às mais tenazes ideias sobre o valor da vida e da morte. É necessário que nós — que assistimos como espectadores, como infiéis admitidos a receber a sua parte da beleza, embora não de sacrifício — nos façamos penetrar pelo pensamento de que o que se presencia não é tudo e que, portanto, é necessário ir mais além. Estas cerimónias e estes cânticos têm a ver com algo a que devemos prestar toda a nossa atenção, cuidando de saber o que significam…

Desde logo, têm um significado para a juventude do país. É a essa juventude que tudo aqui se dirige, e quase nos espantamos ao descobrir entre as SA que enchem as ruas, bávaros bonacheirões e barrigudos, baixos, pacíficos, que vêm nestes uniformes o traje de uma tranquila guarda nacional. Na verdade, tínhamo-nos esquecido que havia alemães com mais de 25 anos, os que, afinal, fizeram o Nacional-Socialismo. É certo que o criaram, mas, depois, o movimento deixou de ser deles e passou para a juventude.

Quisemos ver também essa juventude alemã. Através da província bávara, das suas pequenas aldeias, dos seus bosques (a árvore é a divindade alemã por excelência), falámos com os que nos guiavam.

Embrenhados num caminho pedregoso, eis-nos chegados a uma aldeia de casas de madeira e ao fim das nossas controvérsias históricas. Temos diante de nós um campo de trabalho como os há aos milhares na Alemanha. Só quinze delegados participaram na parada das pás. Os outros estão ali, oitenta ou cem rapazes de 19 anos. Passámos a cerca e o pátio rodeado de tendas militares e maciços de flores, neste momento vazio. Estão, disseram-nos, nas traseiras do campo.

E estão, de facto, sentados na areia sob as bétulas altas, as pás mais longe, e cantam. Estes jovens vestidos de castanho sob as árvores compõem tão naturalmente um quadro da Alemanha eterna na hora do repouso, que parámos um tanto aturdidos. Explicaram-nos: «— É a lição de canto.»

Ali, esta palavra não evoca efeminação afectada, mas a gravidade, a virilidade, o calmo e possante amor da pátria, a devoção total, tudo expresso nessa língua maternal do alemão. Numa das suas canções, sem as quais o Partido não podia existir (a Alemanha só segue aquele que canta), encontramos todas as outras, onde se amalgamam os diferentes romantismos, dos miosótis e dos tempos novos, do sentimento e da guerra. Lisbeth ensinou-me algumas que datam do princípio do movimento e que já quase não se cantam:

«Em Munique muitos tombaram.
Em Munique eram muitos.
Em frente da Feldherrenhalle
As balas os fulminaram.»

ou ainda

«Oh, rapariga loira,
Porque choras tanto?
— Um oficial jovem do batalhão de Hitler
Roubou-me o coração.
Marchava um regimento da Oberland,
Um regimento a cavalo, um regimento a pé…»

Na nossa frente, fazem-se perguntas a alguns destes jovens. São quase todos do Saxe e da Francónia. Depois, explicam-nos o programa das jornadas: alvorada às 5 horas e recolher às 10, programa militar bastante severo. No entanto, nas relações recíprocas destes rapazes (de todas as classes sociais), como nas relações entre chefes e subordinados, há uma espécie de unidade, de rude camaradagem. Aí reside a novidade incontestável do III Reich que conforma a força mais temível da Alemanha. Nos seus acampamentos, sejam da Hitlerjugend ou das SS, todos dormem em cima de palha. Mas aqui há camas, quartos de asseio rigoroso ornamentados com uma grande cruz (uma cruz, de facto, não uma suástica). Como um pouco em toda a parte, foram estes rapazes prometidos à vida áspera que desenharam os canteiros de flores.

Deixo o campo abrigado debaixo de árvores ao mesmo tempo que uma orquestra nos brinda árias de dança… É uma orquestra que voltarei a encontrar também no dia seguinte no grande campo de tendas da Hitlerjugend, desta vez entre a neblina em frente de um sol amortecido pela chuva da noite. Do alto de uma torre de madeira vejo estenderem-se ao longe no plaino bordado de bosques esses abrigos ligeiros onde se exercita a adolescência hitleriana. (…)

A noite caiu entretanto. Íamos jantar ao acampamento das SS nas portas de Nuremberga. Aí, seríamos recebidos por Himmler, chefe das SS, senhor da Gestapo; Goebbels em pessoa preside o jantar. Para dizer a verdade, só aos ingénuos passam desapercebidos o pitoresco do campo ou as tendas reservadas à guarda pessoal do Führer.

A atmosfera das grandes manobras é a mesma de todos os países do mundo; a dos banquetes oficiais também, mesmo quando compostos de “choucroute”, salsichas bávaras e vinhos secos da Francónia. No entanto, tudo isso teria pouco interesse se à saída não nos conduzissem junto do pavilhão do campo. Era a hora de recolher as cores, um pouco mais tarde que a bordo dos navios de guerra. Um clarão lançou ainda um ar nostálgico e o pavilhão rubro da cruz gamada foi descendo lentamente. Em todos os países é um belo espectáculo, sem dúvida, mas, aqui, enquadrava-se noutro conjunto.

Depois da festa, depois do fogo, depois das rotinas quotidianas, passou a ser hábito para o alemão que vive em grupo rememorar as questões mais sérias respeitantes à sua nação e à sua raça… Da mesma maneira que as juventudes hitlerianas têm o seu monumento, este banquete oficial agradável mas que podia ter sido vulgar, recordou-nos que há algo mais, alguma coisa simbolizada pelas honras rendidas ao próprio símbolo do Império. (…)

Eles estão lá e, por força das circunstâncias, são jovens. Muitos sofreram quando crianças as cruezas da guerra, outros, revoluções nos seus países e, todos, a crise. Sabem o que é a nação, o passado, querem acreditar no futuro. Querem ver sem vacilações a cintilação imperial. Querem uma nação pura, uma história pura, uma raça pura. Amam a vida em conjunto, as imensas reuniões de homens onde os movimentos ritmados dos exércitos e multidões se parecem com as pulsações de um grande coração. Não acreditam nas promessas do liberalismo, na igualdade dos homens, na vontade das massas. Do investigador independente ao industrial, do poeta ao sábio ou ao operário, acreditam que uma nação é una, exactamente como a equipa desportiva é una. Não crêem na justiça que se fica por palavras, reclamam a justiça que reina pela força. E sabem que dessa força nascerá a alegria.

Antes de mais, a extravagância dos inimigos do Fascismo reside no desconhecimento total da alegria fascista. Alegria que se pode criticar, alegria que, se vos apraz, pode mesmo declarar-se abominável e infernal, mas que é alegria. O jovem fascista apoiado na sua raça e na sua nação, orgulhoso do seu corpo robusto, do seu espírito lúcido, desprezando os bens fúteis deste mundo, o jovem fascista no seu campo entre os camaradas da paz que podem ser os camaradas da guerra, o jovem fascista que canta, que marcha, que trabalha e sonha, é, à partida, um ser alegre. O comissário radical, o esquálido conspirador judeu-socialista, o consumidor de aperitivos, de moções e de compromissos, poderá entender essa alegria?

Antes de julgá-la, é necessário saber primeiro que existe e que o sarcasmo não irá diminui-la. Não sei se “o século XX será o século do Fascismo”, como disse Mussolini… O que sei é que nada impedirá que a alegria fascista esteja nos espíritos e os enriqueça pelo sentimento e pela razão.

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