Território, Raça e Língua

Por BOS (publicado no blogue Nova Frente a 24/06/05)

Em blogues de boa cepa (no melhor pano, como sabem, cai a nódoa…) anda a difundir-se a ideia de que existe uma «maneira de ser portuguesa». Nessas embarcações blogosféricas em que amiúde sigo viagem, os respectivos ‘timoneiros’ e ‘tripulantes’ afixaram, sob a forma de édito, um duvidoso boletim de identidade nacional. Descobriram uma «maneira de ser portuguesa». Um fato à medida concebido pelo alfaiate do destino.

Portugal seria assim um ‘estado de alma’, alcançável decerto por técnicas budistas e de meditação transcendental. O assunto pegou de estaca e anda por aí meio mundo a discorrer sobre a «metafísica da nacionalidade». Um parvajola liberal, como descobrisse de modo acidental que era filho da puta, quer agora filiar no alcoice da mãe a nação em peso! Isto preocupa-me na medida em que não tenho uma «maneira de ser portuguesa». E assim pergunto se estarei condenado a perder a nacionalidade ou até mesmo a autorização de residência. Será decerto mais sensato reservar o país para 10 milhões de estrangeiros com uma «maneira de ser portuguesa»; ao passo que eu — que sempre fui português, mas tenho uma «maneira de ser estrangeira» —, devo talvez acoitar-me nas profundas da Europa, macerando o exílio nas margens do Danúbio e linguajando magiar.

O debate lembra os últimos dias do Império. Marcello Caetano, do alto da sua inabilidade política, apregoava outrossim que Portugal não era um território — era uma ‘maneira de ser’. Podiam escavacar-lhe a Pátria a pedaços, que a ideia permaneceria. Desde que lhe deixassem um corredor entre o bairro de Alvalade, onde residia, e o Conselho de Ministros — Portugal (e o futuro…) estava assegurado.

Com a ‘maneira de ser’ de Caetano, foi-se à vida o Império de ‘manselinho’; com a ‘maneira de ser’ dos bloguistas modernos, há-de dilacerar-se o tecido social da Nação.

Depois das investidas contra o Território e a Raça, só falta o ataque à Língua. Parece que já os estou a ouvir...! A Língua há-de ser entendida como uma «maneira de comunicar». Por que não fazê-lo em inglês, que todos entendem?

É a dialéctica mundialista em todo o seu esplendor.

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