O Controlo dos "Media"

Por Amílcar Correia (Público, 29 de Outubro de 2004)

O jornalismo existe para dar resposta a perguntas como o "que está realmente a acontecer?" ou "por que é que isto está a acontecer?". É o que todos nós perguntamos nos dias que correm.

O controlo do pensamento nas sociedades totalitárias é conseguido pela força e pela violência (através da proibição, do corte e da censura). Nas sociedades democráticas, esse controlo é exercido de forma mais pacífica e subliminar (através da saturação, do excesso de informação ou de meios eficazes de pressão). A limitação à posse de um "media", assim como a influência de anunciantes e fontes de importância institucional, é certamente um desses meios de controlo. A criação ou aquisição de um órgão de informação só é acessível a um grupo económico forte, o que dificulta a sobrevivência de publicações mais independentes e à margem da lógica de mercado. A concentração entre os "media" clássicos (jornais, televisões e rádios) e os sectores da cultura de massas e da comunicação tornou-se inevitável com a revolução digital, que desfez as fronteiras que separavam as três tradicionais formas de comunicação: som, escrita e imagem. Entre nós, a Portugal Telecom é o melhor exemplo dessa concentração.

A preponderância esmagadora deste grupo, parcialmente nas mãos do Estado, no mercado da publicidade e a quantidade e diversidade de empresas de informação e comunicação na sua posse conferem-lhe um poder decisivo de condicionamento sobre qualquer publicação mais dócil. E quando alguém produz simultaneamente notícias e publicidade a tentação é grande e o condicionamento estreita-se. Com direcções de órgãos de informação suspensas da vontade de ministros, como Morais Sarmento e Gomes da Silva, que sonham com centrais de propaganda e com "cabalas involuntárias", o jornalismo português está hoje exposto a uma clara vontade de controlo político. A ideia do jornalismo como contra-poder nasceu da denúncia por parte da imprensa da existência de injustiças e da violação de direitos fundamentais. A actividade jornalística surgiu, assim, como único meio ao dispor dos cidadãos para comunicar os seus protestos e o seu direito a intervir na vida pública. Mas com a aceleração da globalização liberal o jornalismo perdeu esse cariz de contra-poder.

Hoje, os grandes "media" privilegiam os seus interesses particulares em detrimento do interesse geral, confundindo a sua própria liberdade com a estratégia da empresa, como o atesta o caso Marcelo Rebelo de Sousa. Mas esta não pode prevalecer sobre o direito dos cidadãos a uma informação rigorosa e verificada, nem servir de pretexto à difusão consciente de falsas notícias ou à instrumentalização das mesmas. O jornalismo existe por outras razões que não apenas a mera satisfação das empresas de comunicação ou das estações de televisão em fazer dinheiro, da vontade de quem governa ou do desejo dos repórteres em se tornarem célebres e bem pagos. O seu propósito é satisfazer o desejo geral de obter informação com significado, porque as pessoas querem saber os detalhes, mas também querem saber o que significam esses detalhes. O jornalismo existe para dar resposta a perguntas como o "que está realmente a acontecer?" ou "por que é que isto está a acontecer?". É o que todos nós perguntamos nos dias que correm. E é por isso que é cada vez mais ruidoso o silêncio do Governo sobre o que se passa nas redacções que tutela.

Comentários

Sem comentários

Adicionar Comentários

Este post não permite comentários