Em defesa do Movimento Identitário

Por Rodrigo Nunes

Eu sou um nacionalista-identitário…

Na realidade torna-se necessário colocar a questão nestes termos pois o conceito de nacionalismo não é monolítico e não pretendo dispor do monopólio da sua boa utilização. É natural que dentro do movimento nacionalista existam divergências ideológicas, é assim com qualquer movimento político, existe sempre a esfera inerente ao indivíduo, subjectiva, que dá azo a interpretações diferentes do que se pretende alcançar. Aliás, mesmo no movimento identitário existirão divergências quanto à melhor forma de construir o futuro, próprias de qualquer movimento que agregue um grupo de indivíduos, mas existe um conjunto de princípios comuns sobre os quais assenta o combate identitário que não são passíveis de discussão porque são o seu corpo fundador, a raiz da sua visão de sociedade e mundo, e são esses princípios que unem numa luta comum os identitários. A ideia central que suporta e distingue o identitarismo é a ideia de nação, mas a nação encontrada no seu conceito original e essencialmente aí.

A palavra “nação” descende de “natio” que significa nascer, por sua vez descende do substantivo, em latim, "nationen" cujo significado é “raça” ou “casta”. Significado similar ao de “ta ethe”, em grego, cujo sentido servia para estabelecer uma distinção com os estrangeiros, e também por isso pressupunha uma componente cultural exclusiva. A utilização primeira da palavra “nação” na língua inglesa tinha um conteúdo semântico que designava um grupo de pessoas unidas por laços de sangue, a sua utilização para descrever um grupo de indivíduos habitantes de uma mesma região independentemente da conceitualização étnica assente na ascendência comum surgiu muito mais tarde. Desta forma surge uma distinção entre o conceito de Estado e o conceito de Nação. Esta distinção é clara para um identitário, separa-o aliás de outras correntes nacionalistas. É na lógica que vem da explicação anterior que um identitário compreende, para dar um exemplo, que o povo judeu constituísse uma nação mesmo sem ter terra, ou se preferirem, sem a existência do Estado de Israel.

O cerne do pensamento identitário está aqui, o identitário funda no primórdio do conceito de nação, na sua significância pura, na sua génese, limpa do desvirtuamento moderno, a base, o alicerce do seu nacionalismo. Que fique claro, o nacionalismo-identitário não esquece a raiz étnica que é o âmago da nação e o verdadeiro factor da sua continuidade e existência futura; ou seja, não sendo a identidade étnica a definir única e exclusivamente a nação, esta não existe, no entanto, sem essa identidade.

A compreensão disto leva automaticamente à compreensão de duas realidades que marcam o pensamento identitário português. Primeiro, ao percepcionar a nação no seu fundamento original, um identitário não pode olhar para o fim do Império como a perda de parte nuclear da nação, perdeu-se parte daquilo que era o Estado português, e pelo que referi atrás, Estado e Nação não significam o mesmo, visto que o primeiro é essencialmente um conceito político ou jurídico e o segundo antecede a esfera da lei. Não significa que se considere irrelevante ou indiferente a perda de parte do território português mas antes que a nação não deixou de existir ou fazer sentido por isso; na exacta medida em que o seu cerne se manteve intacto, o povo e espaço europeu original.

Segundo, compreende-se por que razão o movimento identitário tende a criar sinergias europeístas, é precisamente pelo facto dos povos europeus partilharem uma herança étnica, um legado civilizacional, terem enfrentado no passado lutas comuns (que dividiram a Europa na medida em que foram ganhas nuns lados e perdidas noutros), enfrentarem no presente problemas semelhantes e também pela consciência de que na actualidade a geopolítica implica da parte dos europeus uma partilha de posições em “áreas-chave” se quiserem enfrentar os problemas que se adivinham ou que já existem assumindo um papel próprio. Numa era em que o Mundo está cada vez mais dividido em grandes blocos espaciais, uma Europa de pequenas nações a remoer antagonismos e quezílias passadas não terá poder algum para se opor à hegemonia americana ou à ascensão chinesa, não só politicamente como economicamente, e todas as nações europeias sofrerão com isso.

É determinante, no entanto, ter plena consciência de que esta UE nada tem a ver com o ideal identitário, na medida em que não pugna pela preservação da identidade europeia, pela sua emancipação face a culturas estranhas à Europa, é centralizadora e não revela qualquer ambição de revitalização do espírito primordial europeu. Diria que é quase a negação do movimento identitário.

É preciso afirmar que a Europa identitária é uma Europa das nações e que pela realização particular das suas nações realiza-se enquanto realidade colectiva. E convém explicar o que se entende por isto. Em boa verdade, a Europa das pátrias ou das nações que o movimento identitário defende não é mais que a consequência lógica de um princípio fundamental do identitarismo: o principio da subsidariedade, que advoga a gestão localizada, descentralizada, dos problemas. A tomada de decisão é um processo que é delegado em instâncias superiores apenas quando houver incapacidade, impossibilidade ou desvantagem em ser empreendido ao nível da comunidade. Este princípio está correlacionado com a visão comunitária do identitarismo. Naturalmente a consequência lógica destes pressupostos implica o “Estado-Nação” como uma inevitabilidade, legítimo representante da comunidade nacional perante a “Europa-Potência”, uma comunidade (nação) que se quer organicamente coesa para que possa ser funcional e que por isso implica necessariamente uma identidade de estirpe, cultural, linguística, tradicional.

A descentralização de poderes e plena autonomia decisora das nações (e a uma outra escala no interior destas) no que concerne às suas culturas, tradições e mecanismos sociais específicos deve ser a base do funcionamento da Europa, passando para um nível supranacional a concertação ou união efectiva nas áreas que estejam relacionadas com “macro-realidades” políticas e económicas e que exijam inevitavelmente uma posição comum em ordem a beneficiar o espaço europeu como um todo, sejam por exemplo os casos de coordenação na investigação cientifica em áreas onde a detenção de patentes fora do sector privado possa trazer benefícios (como a saúde), uma agenda ecológica comum, o desenvolvimento de uma força militar (permitindo sair progressivamente da dependência americana/judaica), uma política de controlo de fronteiras intransigente e partilhada, a coordenação fiscal de forma a permitir uma concorrência justa intra-europeia atendendo às especificidades estruturais de cada economia, o estabelecimento de medidas de protecção comercial face ao exterior, etc.

Naturalmente essa Europa não pode permitir a concessão do direito de nacionalidade a cidadãos não europeus e deve funcionar como um bloco comercial tutelado, daí a necessidade de, como defende Maurice Allais (Nobel da economia em 1988), estabelecer um mercado de livre concorrência no espaço europeu mas protegido face aos mercados externos. Allais vai até mais longe e afirma peremptoriamente que a liberalização comercial só é possível, vantajosa e desejável num espaço regional de um grupo de países coordenados económica e politicamente, com economias razoavelmente próximas e nunca à escala mundial, como preconiza o modelo implementado desde os acordos do GATT e que tem sido ferramenta essencial na manutenção da hegemonia americana (e a uma escala menor inglesa) no mundo.

Portugal não terá de abdicar da defesa dos seus interesses específicos, caber-nos-á naturalmente um papel importante na ligação comercial e diplomática com a África lusófona mas estritamente nesses termos e nunca com vista a qualquer projecto de integração política ou social de qualquer tipo, exactamente o mesmo papel que caberá à França na relação com a África francófona. A Portugal, pela sua posição atlântica estratégica, caberá também um importante papel na ligação da Europa ao continente americano e muito em particular ao seu extremo sul onde vivem milhões de europeus que falam português, muitos dos quais de ascendência lusa. A existência de coordenação na política externa europeia não implica qualquer diminuição da nossa capacidade de intervenção nos mercados onde detemos vantagens naturais que não advenham de inaptidão própria, e essa só responsabiliza os próprios portugueses.

Nacionalistas porque compreendemos o substrato étnico fundador da nação, nacionalistas porque respeitamos a nossa história mas queremos assegurar o nosso futuro, nacionalistas porque procuramos o bem-estar dos portugueses (culturalmente, socialmente, economicamente), nacionalistas porque defendemos valores e instituições estruturantes de qualquer comunidade saudável, nacionalistas porque rejeitamos dogmas económicos, pretendendo colocar a economia ao serviço do homem e da comunidade e não o inverso. Nacionalistas porque compreendemos que a ideia de desenvolvimento pressupõe a expansão das capacidades humanas (um conceito desenvolvido por Amartya Sem - Nobel da economia em 1998) e não meramente o crescimento do PIB, indicador que aliás não considera o crescimento de desigualdades e a exclusão no seio das sociedades; nacionalistas porque procuramos a colaboração harmoniosa e a cooperação instintiva naturais nas sociedades unidas por um sentimento de cultura ancestral e ligação biológica como estudado na teoria sociológica de Ferdinand Tonnies (a sua gemeinschaft), que explica como as sociedades coesas pela unidade orgânica funcionam naturalmente de forma mais solidária. Identitários porque acreditamos que tudo isto é hoje realizável pela lógica, inevitável e desejável cooperação entre os povos da Europa sem abdicarem da sua especificidade.

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