A derrota da Europa

Por Alberto Gonçalves (Correio da Manhã, 2005-11-08)

A primeira vez que vi Paris, na adolescência, lembro-me daquela plácida noite de Julho, sentado junto ao canal de Saint Denis, a contemplar o fogo-de-artifício que celebrava a Revolução. Liberdade, igualdade, etc. Da última vez que vi Paris, as lembranças foram outras. Não tenho intenções de regressar.

Hoje, as noites da França não são plácidas e o fogo não é de artifício. Há 12 dias que um incidente em Saint Denis inaugurou uma violência que é inédita apenas na dimensão. A rotina passa por carros queimados (um velho hábito, dizem-me), edifícios destruídos e iniciativas diversas, como incendiar uma senhora numa cadeira de rodas. Grave? Não. Graves, ao que consta, foram as declarações do ministro do Interior, o sr. Sarkozy, que chamou “escumalha” aos autores da balbúrdia, imigrantes ou descendentes. Eu achei “escumalha” uma palavra adequada. À semelhança do sr. Sarkozy, ele próprio filho de imigrantes, eu estava enganado. Os especialistas explicam: trata-se apenas de jovens excluídos, vítimas de carências sociais.

Os especialistas só não explicaram por que é que nem todos os “excluídos” possuem inclinação pirómana. Percebe-se: não custa recomendar integração, compreensão e, se sobrar tempo, chá e miminhos. Já é aborrecido fazer notar que o caos francês, aplaudido de pé pela esquerda maluca, não é causado por portugueses, coreanos ou romenos, mas é obra exclusiva de muçulmanos, do Magreb ou do Sul. Isto obrigaria a escusadas evocações do terrorismo islâmico e do choque das civilizações, um disparate puramente imaginário. A solução é demitir o sr. Sarkozy, promover a “requalificação urbana” (sic) e irmos à nossa vida. O problema é francês, deixemo-lo com a França, que aliás costuma defender-se com galhardia.

E se o problema não é francês? E se os equivalentes destes peculiares “excluídos”, na Alemanha e na Holanda, na Itália e na Inglaterra, seguirem o exemplo, conforme ameaçam? Na semana passada, alguns dos muçulmanos da Dinamarca marcharam contra a liberdade de expressão, apoiados pelos embaixadores locais de países como a Turquia e o Egipto.

E de facto a liberdade constitui para muitos deles um problema. Ao invés do que julgam as boas consciências, talvez as novas gerações de muçulmanos não sonhem com a “compreensão” alheia e não desejem que a Europa os “integre”. Talvez prefiram antes desintegrar a Europa, tolhida pelo estertor do “modelo social”, pelo mito da “tolerância” e por dúzias de líderes cuja irresponsabilidade devia merecer cadeia.

Referir estas banalidades conduz sempre a acusações de “racismo” (e não adianta argumentar que os muçulmanos não são uma etnia). Evitá-las, por outro lado, permite que o autêntico racismo triunfe, seja o dos criminosos de Paris ou o dos “carismáticos” chefes que um dia se levantarão dos escombros democráticos para nos “proteger”. Em qualquer dos casos, a Europa perde. Bin Laden é um tipo de sorte.

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