O Europeísmo Totalitário

Por José Adelino Maltez in Princípios de Ciência Política

A ideia da Europa, entre as duas Guerras Mundiais, penetrou de tal maneira no limiar da política que os próprios totalitarismos de então não deixaram de a instrumentalizar.

É conhecido o projecto de Lenine de uns ‘Estados Unidos Republicanos da Europa’, numa estratégia que pretendia encontrar para a revolução bolchevique imediatos aliados ocidentais, nomeadamente pelo projecto de apoio à revolta comunista na Alemanha e a consequente extensão do ‘incêndio da revolução mundial’ a Paris coisa que apenas foi impedida pela vitória dos polacos na batalha do Vístula.

Da mesma forma, Adolf Hitler quase conseguiu, pela repressão, pela propaganda e pela conquista, constituir uma unificação europeia. Para as teses nazis, o ‘Grossesdeutsches Reich’ deveria constituir um ‘grande espaço’ com um ‘Estado director’, reunindo todos os povos de língua alemã.

Em primeiro lugar, deveria adquirir ‘espaço vital’, estendendo as fronteiras para Leste, onde se situariam os limites de um novo império, onde soldados-colonos deteriam ‘os bárbaros vindos das estepes’. Em segundo lugar, viriam os ‘aliados’, como os escandinavos, os holandeses e os ingleses. Em terceiro lugar, os ‘satélites’ como os latinos, os húngaros e os gregos. Finalmente, os eslavos pertenceriam à categoria de escravos e os judeus seriam exterminados.

Como dizia Goering, em 1943, ‘nessa altura o continente estaria maduro para a união política, união que conservaria as autonomias regionais e adoptaria um plano comum de cooperação colonial em África’. Acrescentava mesmo: ‘mesmo se nós perdermos a guerra, na minha opinião, é este o futuro da Europa e nada impedirá que ele se cumpra’.

Na prática, a expansão hitleriana quase correspondeu a essa teoria, construindo-se um Império continental bem mais extenso que o de Napoleão.

Primeiro, estendeu-se às zonas alemãs. Em 12 de Março de 1938 é a ‘Anschluss’ da Áustria. Na Conferência de Munique de 29 e 30 de Setembro seguintes, garante a integração dos Sudetas. E em Março de 1939, já é eliminada a Checoslováquia.

Segundo, estabeleceu um contrato de seguro com o estalinismo gestor da Rússia, o pacto germano-soviético de 24 de Agosto de 1939.

Finalmente, a guerra, que começa com a invasão da Polónia, no dia 1 de Setembro de 1939. A ocidente, caem os Países Baixos, a Bélgica e a França; a norte, a Dinamarca e a Noruega; a sul, a Jugoslávia e a Grécia; em direcção ao centro, a Checoslováquia e a Áustria; a Leste, os países bálticos e a Polónia.

Tem como aliados a Hungria, a Roménia e a Bulgária. A Itália é um parceiro. A Espanha e a Finlândia são amigos. Portugal depende do que acontecer com Espanha. A Suécia e a Suíça assumem a neutralidade. A própria Rússia parecia subjugada e Hitler chega a ir mais longe do que Napoleão quando se lança no Cáucaso.

O modelo organizatório do Estado director divide a Checoslováquia entre um Estado eslovaco e um Protectorado da Boémia-Morávia. Na Jugoslávia, é criado um Estado croata, incluindo a Bósnia, que é gerido por Ante Pavelic.

O elemento mobilizador desse grande espaço político é a luta contra o comunismo: ‘é preciso fazer a Europa contra o bolchevismo’, foi o signo mobilizador que fez chamar à campanha da Rússia inúmeros voluntários de vários países europeus que se aliaram à ofensiva nazi. Falou-se, então, numa ‘Europa Nova’ e numa ‘ordem nova’. Goebbels, o principal expoente de toda esta propaganda, declarava então: ‘não será a primeira vez na história que a Europa comungará das mesmas concepções políticas, morais, sociais e económicas’. Um povo de senhores (Herrenvolk) está prestes a construir uma Europa de vassalos (Untermenschen).

Em Maio de 1943, Hitler confessava a Goebbels: ‘qualquer desordem dos pequenos Estados que ainda existem na Europa deve ser liquidada tão depressa quanto possível. O objectivo da nossa luta deve ser criar uma Europa unificada. Os alemães, sozinhos, podem realmente organizar a Europa’.

Aliás, foi reagindo contra esta mobilização que o grande escritor alemão Thomas Mann, numa comunicação aos europeus, feita na Rádio Nova Iorque, em Janeiro de 1943, considerou: ‘o grande ideal da Europa foi pervertido e corrompido de maneira horrível; caiu nas mãos do nazismo que, há dez anos, conquistou a Alemanha e conseguiu, por causa da vossa desunião, subjugar todo o continente. Esta conquista do continente é apresentada pelos nazis como a unificação da Europa, como a "ordem nova", conforme as leis da história. De todas as mentiras de Hitler, a mais insolente é a mentira europeia, a perversão da ideia europeia (...) Ficai sabendo, ouvintes europeus (...) a verdadeira Europa será criada por vocês mesmos, com a ajuda das potências livres.’

O europeísmo constituía, aliás, um dos elementos estruturantes do ‘romantismo fascista’ francês. Pierre Drieu la Rochelle advogava já em 1921, em ‘Mesure de la France’ que a ‘era das alianças está aberta’ sem que o ‘papel das pátrias’ tenha ‘terminado’, preocupando-o a circunstância dos russos serem 150 milhões e dos americanos rondarem os 120 milhões. Assim, considerava que ‘a Europa se federará ou então se devorará ou será devorada. E as gerações da guerra, que não parecem por aí caminharem, farão isso ou então será tarde demais.’

Cerca de um lustro depois, em ‘Geneve ou Moscou’, de 1927, já propunha um ‘patriotismo europeu’ contra o nacionalismo, proclamando a necessidade de se ultrapassar ‘o esgotamento espiritual das pátrias, necessidade de se criar uma vasta autarquia económica à medida de um continente.’

Em 1931 escreve ‘Europe contre les Patries’, temendo uma Europa central e oriental atormentada pelo inacabamento das suas formas e temendo a guerra. Em 1934 diz mesmo: ‘a minha fé na Sociedade das Nações afirmava-se maior do que nunca. Hoje, apesar das contrariedades, permanece. Espero as metamorfoses da ideia’. Em 1940 ainda considera que ‘agora é preciso entrar no federalismo e pôr fim ao nacionalismo integral e ao autonomismo patriótico.’

Alphonse de Chateaubriant numa carta de 28 de Novembro de 1918 dizia: ‘o futuro da Europa é muito sombrio, mas, custe o que custar, caminhamos para uma "Europa una", cada vez mais "una".’

Robert Brasillach, falando na Europa como ‘o velho cabo da Europa, donde partiu, há três mil anos a civilização branca’, defendia o ‘colaboracionismo’ em nome da necessária aliança franco-alemã: ‘sem a França indestrutível e a Alemanha indestrutível, nenhuma paz poderá jamais estabelecer-se na Europa. Se tentarem aniquilar uma ou outra, os germes da guerra renascerão sempre. Não apenas a Alemanha é a única potência no mundo que pode hoje barrar o caminho à revolução marxista, quer isto nos agrade ou não, mas, para além deste facto, a Alemanha está no centro da Europa e aí ficará sempre: sem a sua força nada é, portanto, possível.’

Com efeito, entre os fascistas autênticos, que são os ‘fascistas românticos’, surgiu um europeísmo, entendido como um grande nacionalismo, numa Europa entendida como uma grande pátria. Como expressivamente referia Drieu, ‘sempre fui um nacionalista que a tal renunciou em nome da Europa, um filósofo da força que acreditou cada vez mais na utilidade da força entre os europeus.’

Esta perspectiva manteve-se no próprio neofascismo, destacando-se Jean Thiriart a teorizar uma ‘Nação-Europa’ que teria direito a um ‘Estado-Europa’. Este autor, reagindo contra a ‘pátria-hábito’ (v.g. a Bélgica), a ‘pátria-recordação’ (v.g. a Alemanha) e a ‘pátria-herança’ (v.g. a França), defende que ‘a única verdadeira pátria é aquela que pensa no devir’, isto é, ‘uma pátria de expansão’, definindo-se como um ‘nacional-bolchevique pan-europeu, ao serviço de um comunismo liberto de Marx’, e propondo ‘a necessária passagem dos Estados territoriais para os Estados-continentais’. Criticando a ideia gaullista de Europa das Pátrias, considerada como uma ‘junção momentânea e precária de rancores e fraquezas’, proclamava um ‘nacionalismo europeu’ que enfrentasse os ‘nacionalismos russo e americano’, considerando que ‘a Europa deve ser unitária: uma Europa confederada ou Europa das pátrias são concepções onde a imprecisão e a complicação escondem a custo a falta de sinceridade ou a senilidade dos que as defendem e dissimulam os seus propósitos e os seus cálculos.’

Para o mesmo Thiriart, ‘a Europa confederada é a forma das alianças clássicas e dos preconceitos tão clássicos como desonestos (...) é a Europa aberta às influências estrangeiras’. Mas se considera que a fórmula federal constitui ‘um grande progresso’, ainda ‘contém em germe a possibilidade de cisões ou, pelo menos, de crises internas’. Seria mero ‘estádio preparatório da Europa unitária’, porque ‘a fórmula confederal é o cálculo e preconceito; a fórmula federal é a confusão; a forma unitária é o método, a ordem, a clareza’, a diferença que faz ‘a concubinagem, o noivado e o casamento.’

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