A verdadeira face do BE

Por Nicolau Santos (Expresso, 4 Julho 2005)

Não é que de uma mistura de trotskistas e marxistas-leninistas-maoístas se pudesse esperar um resultado brilhante, apesar da reciclagem democrática. O que era suposto, capitalizar o descontentamento de franjas de jovens urbanos e de intelectuais que se acham melhor que o país, está feito. Agora que seria necessário dar o passo em frente para alargar a base de apoio começa a tornar-se evidente que o Bloco de Esquerda há-de ser sempre o que é: um pequeno partido nas margens do sistema.

O exemplo mais acabado da falta de aderência do BE à realidade (e de colagem acrítica ao politicamente correcto) foi a reacção da deputada Ana Drago e do dirigente Daniel Oliveira ao «arrastão» na praia de Carcavelos. A deputada Ana Drago, já famosa pelo neologismo que criou aquando da derrota de Santana Lopes e vitória absoluta do PS de José Sócrates (a «virança», como então lhe chamou), veio agora candidamente informar o país de que o que se passou naquele domingo em Carcavelos não passou de pequenos furtos realizados por meia dúzia de pessoas - e tudo o resto resultou da carga selvática das forças policiais sobre os banhistas que correram desordenadamente de um lado para o outro da praia, provocando o que pareceu ser um arrastão, mas que não o foi, como nos explicou a deputada do BE.

Na mesma senda, Daniel Oliveira, na sua habitual crónica no EXPRESSO, apelidou de «inventão» o acontecimento e esclareceu-nos que «o arrastão nem arrastinho foi», «os roubos afinal aconteceram depois de uma rixa e no meio da confusão» e os jornalistas, manipulados pela polícia, fizeram o resto: «A maioria dos jornalistas não tem agenda, não faz agenda, não olha sequer para nenhuma agenda. E não investiga nada. São apenas artistas de variedades, prontos para entreter o público com aquilo que o público quer».

Fico sempre fascinado com os não jornalistas que usam abundantemente os media para se promover e promover as suas organizações, para depois os criticarem forte e feio. Daniel Oliveira não é o único. Mas para mal do fundador do «Barnabé», às vezes a realidade é demais evidente para ser como o BE quer. Eu não estava em Carcavelos - e suponho que Oliveira também não. Mas estava a minha filha e um grupo de amigos ao pé da bola do Nívea. E o resultado que fazem do que aconteceu - e dos roubos e tentativas de que foram vítimas - não bate certo de todo com a benigna visão do que aconteceu que têm os bloquistas Ana Drago e Daniel Oliveira, sempre muito politicamente correctos.

Ao mesmo tempo, anda o BE a colar cartazes pelo país com os dizeres «Foi para isto?» e uma fotografia de José Sócrates, de cara zangada, e mais umas frases «Aumento de impostos, aumento de combustíveis», etc. A questão é saber o que é que o Bloco faria se fosse Governo, que medidas proporia para colmatar o défice acumulado. Não espera certamente resolver pelo lado do combate à fraude e evasão fiscal o problema. Na verdade, o actual director-geral de Contribuições e Impostos, que Bagão Félix queria despedir por motivos pessoais, espera já este ano recuperar 317 milhões de IRC através do combate à evasão fiscal e mais 200 milhões de IVA através do combate à fraude. Há muitos anos que não se viam tais resultados. O BE conseguirá fazer melhor? E o brilhante economista Francisco Louçã como é que consegue fazer a quadratura do círculo: controlar o défice, sem aumentar impostos, nem congelar carreiras na Função Pública, reduzir o desemprego, mas aumentar os impostos sobre as empresas e os bancos, esperando que o investimento suba e o consumo também, sem desequilíbrio nas contas externas. É esta a receita que o BE propõe. Sendo o melhor dos mundos, tem um problema. Não funciona. É como o arrastão. O BE não gosta, mas existiu. Às vezes, a realidade atrapalha muito.

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