A festa do Natal na tradição europeia

Por Afonso Ribeiro (Jovem NR)

O Natal, festividade de crucial importância no actual Ocidente, era uma festa já celebrada antes da entrada do Cristianismo na Europa, tratando-se por isso actualmente de uma festa na qual convergem e coincidem tradições pagãs e cristãs. Para os Europeus antigos, na raiz desta festa estava a celebração do Solstício de Inverno, isto é, do momento em que o Sol, depois dos seis meses de declínio, reinicia a sua ascensão. Daí o nome «Natal»: vem de «Nascimento» (para os pagãos nascimento do novo ano solar e para os cristãos nascimento de Cristo), e é de raiz latina, como a própria Língua Portuguesa, que é, como se sabe, de ascendência romana.

Trata-se pois, na tradição europeia original, da festa do Nascimento da Luz.

A festa do Solstício de Inverno foi celebrada em Roma (e no seio de outros povos; mas, neste artigo vamos centrar-nos principalmente na tradição latina) desde tempos arcaicos. Esta grande celebração era feita em honra de Saturno, o rei da Idade do Ouro (isto é, a Idade da Perfeição do início do mundo, quando todos viviam em paz e harmonia). Saturno é o Deus das Sementeiras (e, por extensão, do sémen), pois que o Seu nome vem, provavelmente, da raiz «Satus» (isto é, «brotar de», ou, talvez, «semear»). Ora, como em Dezembro se faz a última semeadura do ano, a Sua celebração tem lugar precisamente neste mês.

Durando a princípio apenas um dia, 17 de Dezembro, esta celebração passou a estender-se por dois dias com Júlio César, por três com Octávio César Augusto (o primeiro imperador de Roma, aclamado imperador na Ibéria, pelas suas tropas romanas e celtibéricas), e, de imperador em imperador, a festa acabou por durar sete dias – de 17 a 23 do referido mês.

No acima mencionado dia 17, a lã que envolvia a estátua de Saturno era retirada, o que significaria o desabrochar da semente no décimo mês (Dezembro era, como o próprio nome indica, o décimo mês, antes da reforma do calendário que deu mais dois meses ao ano). Depois, procedia-se a um sacrifício em honra do Deus, Saturno, e a um banquete, no qual o Deus participaria, pois que a Sua estátua era colocada num leito junto à mesa, com os convivas humanos. Usavam-se roupas mais simples e as pessoas iam pelas ruas gritando e festejando. Neste evento religioso, as distinções sociais desapareciam, pelo que todos, escravos e senhores, se encontravam em plena igualdade; o desregramento e o deboche impunham-se e praticava-se sexo a torto e a direito. Alguns criminosos eram amnistiados e soltos, indo colocar as suas algemas no templo deste Deus, como oferenda. As execuções dos sentenciados com pena de morte eram adiadas. Tudo parava: tribunais, escolas, senado, o trabalho em geral.

Era um retorno a uma Idade do Ouro, isto é, a uma época mítica, do princípio dos tempos, quando todos os homens eram justos e pacíficos e não eram necessárias armas ou leis impostas.

No seio das famílias, elegia-se uma espécie de Rei Momo, o Saturnalicius Princeps, que presidia aos banquetes, à folia e às orgias. Além disso, ofereciam-se presentes: pequenos bonecos de cerâmica – sigillaria – para as crianças, e velas de cera – cerei – para os amigos.

Ora, é de suma importância o facto de esta antiga celebração romana apresentar significativos pontos em comum com certos festejos portugueses, muitos de provável origem pré-romana (centro-europeia ou céltica), o que aponta para um fundo original comum entre os romanos e esses povos centro-europeus. De acordo com Leite de Vasconcellos, por exemplo, a celebração do Bispo Inocente (anterior à do Espírito Santo, proibida em 1260, mas ainda celebrada com grande pompa no século XVII, precisamente na catedral de Lisboa) era marcada pela folia, e pela escolha do menino de coro mais novo (nas catedrais) para liderar, por assim dizer, a solenidade em questão, podendo mesmo lançar bênçãos; nos festejos do culto do Espírito Santo, há sempre a coroação de uma criança do sexo masculino; e, nalguns locais, até se soltava, simbolicamente, um preso. É também sumamente significativo o facto de que, na Beira Baixa, o termo «folia» designar uma confraria do Espírito Santo.

De resto, é bem conhecido o clima carnavalesco e debochado que tão bem caracteriza as festas natalícias transmontanas, onde existe a tradição dos Caretos, jovens mascarados que circulam pela aldeia, batendo às portas, recebendo bolos, vinho e outras vitualhas, numa ronda avassaladora e evocadora de um certo espírito guerreiro de tempos arcaicos. É também verdade que a energia dos jovens guerreiros do povo fertiliza os campos e vivifica toda a raça, daí que exista, desde tempos antigos, uma ligação do Deus da Guerra com a fertilidade dos campos. Curiosamente, o termo acima referido, «Caretos», parte de uma raiz «Car-» (que também está em «caraça») e, estando ou não relacionado com a palavra «cara», o que é facto é que também está na raiz de nomes de Deidades bélicas pré-romanas, tais como aquela que viria a ser denominada em latim por Mars Cariociecus.

Em Roma, celebrava-se também o Sol Invictus, ou Sol Invencível. Tal festejo foi iniciado em Roma pelo imperador Aureliano, em 274 d.C., que instaurou no dia 25 de Dezembro a celebração conhecida como Natalis Solis Invictus, isto é, Nascimento do Sol Invencível. Aureliano soube deste modo utilizar usar as influências orientais (ele tinha estado no Oriente, combatendo em bem sucedidas campanhas) em proveito de uma renovação do culto romano do Sol Indiges, isto é, do Sol Indígena. A festa tem esta designação porque os Romanos das origens distinguiam entre Deuses Nacionais, isto é, autenticamente romanos, em relação aos Deuses estrangeiros. E os Romanos tinham um culto nacional do Sol, que entretanto tinha ficado um pouco esquecido. Mas Aureliano, que era descendente do clã Aurélia, família dedicada desde cedo ao culto solar, soube renovar a tradição familiar que lhe estava no sangue. O Sol Invictus é o Sol na sua expansão máxima, no seu esplendor, é uma imagem que simboliza a imortalidade e o que nunca foi nem pode ser vencido. Em sua honra faziam-se, de quatro em quatro anos, corridas de carros, o que é tipicamente romano.

Outra celebração que iria dar muito que falar foi a de Mitra, ou Mithras, Deus Ariano da Luz. Mitra é um antiquíssimo Deus, comum à Índia e ao Irão, Guardião da Verdade e dos Contratos. Com um certo carácter solar na Índia, a solarização da Sua figura era mais forte no Irão e na Mesopotâmia, e foi daí que ele chegou aos soldados romanos. De tal modo que o Seu dia sagrado era o domingo, isto é, em Latim, o Dies Solis, ou dia do Sol (no vocabulário pagão romano cada dia da semana é consagrado a uma Divindade). Curiosamente, também entre os povos pagãos célticos e germânicos o sétimo dia da semana era o dia do Sol, o que mais uma vez comprova a origem indo-europeia comum à Europa e certas zonas da Ásia. Assim, embora não fosse o Deus do Sol propriamente dito, Mitra foi em Roma frequentemente confundido com o culto do Sol Invictus. Mitra tinha nascido de um pedra atingida por um raio, no meio de pastores – portanto, não tinha mãe. Com efeito, o Seu culto, destituído de figuras femininas, era inteiramente viril, próprio de guerreiros, e propunha um ideal de pureza e rigor absoluto, qualidades especialmente admiradas pelos militares latinos, daí a sua grande difusão por todo o Império Romano, levado para todas as partes da Europa romanizada pelos soldados das legiões imperiais. Em Tróia de Setúbal, por exemplo, encontraram-se vestígios do culto mitraico.

O culto mitraico era todavia algo diferente do do Sol Invictus: este último, era puramente oficial, enquanto o do Deus ariano era sobretudo mistérico, isto é, continha uma vertente de secretismo e iniciação, ou seja, este culto tinha uma hierarquia (em sete graus) por onde o indivíduo ascendia ao conhecimento das verdades da vida e do universo, verdades estas que estariam vedadas ao homem comum. Esta iniciação era vedada às mulheres, e implicava a superação de provas duras, física e psicologicamente, daí o seu carácter elitista. Na iniciação em questão, a influência do culto de Saturno acabou por se fazer sentir, pois que o último grau (o de Pai, ou Pater, termo que está provavelmente na raiz da designação «Padre», dada aos sacerdotes católicos, pois que o Cristianismo bebeu muito da sua forma cultual no Mitraísmo) estava associado a Saturno. A imagem mais conhecida de Mitra, presente nos Seus templos (localizados em grutas), é a do jovem Deus, com um barrete frígio, a matar um touro, rodeado do que se pensa serem ajudantes, ou encarnações do Sol. Das feridas do touro, cai um sangue que fertiliza a terra. Assim, o sacrifício do touro traz uma salvação geral do Universo, contra a fome e a miséria. A alma do touro, por sua vez, sobe ao céu e fica ao lado do Deus Supremo, pai de Mitra. Mitra, por seu lado, nunca morre, nunca é vencido, e, depois de um último banquete com os seus seguidores, sobe ao céu, deixando atrás de si um modelo ético de firmeza e carácter guerreiro.

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