Ideal hereditário

Por Rodrigo Emílio (in Política, n.º 30, pág. 12, 01.04.1971)

Já alguém lapidarmente proclamou, certo dia, que a pátria é a Terra e os Mortos.

Isso é sobretudo verdade para o nosso caso. Mais: para as circunstâncias actuais que defrontamos, e face às quais altivamente nos debatemos.

Justamente, por via da Terra, é que todos os dias o número dos nossos mortos se acrescenta. Por outro lado, a Terra que nacionalmente nos constitui não é assim tão estreita, ou tão pobre — e que fosse! —, nem os mortos que diariamente nos enlutam são assim em número tão dígito — e que fossem! —, ou vítimas apenas de caprichos governativos do passado, para haver quem entre nós se dê ao luxo de lhes contabilizar os encargos, e tenha inclusivamente a triste ideia e o mau gosto de lhes inventariar os quês e os porquês.

O destino de um Povo — e é o nosso destino de Povo independente e vocacionado que continua a estar em jogo — não pode compadecer-se com as sugestões de indignidade, clamorosamente antinacionais, que têm estado a ser aleivosamente apresentadas para aí, nestes últimos tempos. O destino de uma comunidade é ideal hereditário que se requer permanentemente indemne e incólume, e que não admite profanações do jaez daquelas que o gentio interno, sonoramente ou em voz baixa, vai tentando cometer.

Agora, mais do que nunca, nós nos vemos a braços, e a contas, com a desmultiplicação geográfica do nosso território. Agora, mais do que nunca, estamos a dar provas — na Guiné, em Angola, em Moçambique — da unidade de destino que andamos a cumprir no mundo, demais a mais acicatados agora pelo nobilitante momento de guerra que atravessamos. É tarefa, esta, cuja realização reclama, da parte da Nação em peso, um silêncio total, uma sereníssima anuência. E é quando, precisamente, mais alarido se permite, mais enormidades se consentem, mais deserções se autorizam!...

Seja, porém, como for, e dê lá por onde der — Portugal é irrevogável!

Decididamente, há sempre uma coisa — entre nós, pelo menos — com a qual os renegados em boa verdade não contam, e que normalmente lhes trama, e dá cabo, e de todo transtorna os bem gizados planos de urbanização marxista do país: é com o instinto nacional, o instinto apuradíssimo — espécie de sexto sentido — da comunidade portuguesa, que, de pronto pressente sempre, denuncia, e a tempo, os torvos e torpes intentos, a coberto dos quais, torna que não torna, se dá, por cá, livre curso à filosofia do entreguismo, à dialéctica da traição.

No fundo, nada disto deverá constituir surpresa de maior. A muitos anos de distância, já Salazar certeiramente prevê a aproximação dos «tempos em que a grande divisão, o inultrapassável abismo há-de ser entre os que servem a Pátria e os que a negam». E faz notar ainda o saudoso estadista: «Dir-se-ia que alguns países estão fatigados da sua existência como nações da sua existência como nações independentes. Não é, evidentemente, o nosso caso, por muito que certos tribunos de matriz moscovita ou pequinense — sem que o Povo, aliás lhe tenha encomendado o sermão ou, para tal lhes tenha passado sequer qualquer procuração — proclamem que sim e mais que também. Por ora, nenhum cansaço, nenhum desgaste se deparará a quem tomar o pulso da comunidade nacional. Antes, sim, nos caracteriza a todos nós, uma cada vez mais firme autodeterminação, e uma cada vez mais maior força de certeza, na preservação e salvaguarda do legado, pluridimensional que se encontra territorialmente confiado ao nosso cuidado e à nossa defesa, pela muito simples razão de que somos seus donos e senhores, e detentores incontestados, quer de facto, quer de direito.

Não. Não estamos dispostos a mudar de ideias. Não estamos para aí virados. De resto, o Povo bem sabe — de saber certo: saber todo ele de experiência feito — que a Nação ainda é a melhor garantia da existência histórica de todos os portugueses, do ponto em que configura uma empresa colectiva, dentro da qual, e à cabeça, o Estado funcionará — ou deveria funcionar — como máquina operante e entidade propulsora de um processo histórico, velhinho de séculos, que é mister ver projectado no futuro. Não pode isto representar novidade para ninguém, e muito menos para quantos se sintam com jus à dignidade de serem tidos e havidos por filhos legítimos de Portugal.

É função gratuita da prata comunista e para-comunista cá da casa encontrar motivos, sempre os mesmos e sempre renovados, para repôr todas as coisas em litígio — e, de preferência, coisas vitais —, com a finalidade, não menos gratuita, de atiçar movimentos passionais irresponsáveis, que conduziriam, como facilmente se adivinhará, ao suicídio nacional.

Contudo, o Povo — umbilicalmente preso às entranhas da Terra, e por demais alertado sobre as mais instantes realidades colectivas —, não vai em cantigas de deserção, e o menos que sugere àqueles que propugnam a tese da decomposição nacional, é que tenham tento, ganhem siso e reaprendam a ser portugueses.

A coordenada-mor, por excelência, que mais nos move e nos anima, traduz um propósito, reiteradamente expresso, de permanência na continuidade.

Desta sorte, fazemos, pois, profissão de fé inabalável na fidelidade, a História e bem assim ao ideal dinâmico da Nação Portuguesa.

Ao proclamarmos a crença no fenómeno Nação aglutinador de tradições, necessidades e aspirações, e no fenómeno Estado contra os anarquismos, contestações e liberalizações aniquilantes, não estamos senão a pronunciar um verdadeiro acto de atricção: atricção à realidade multitemporal e multi-especial que todos os nós somos, a qual se constitui milagre de acareação humana criadora, em termos de unidade substancial.

Nesta perspectiva, avulta, antes de mais e depois de tudo, a necessidade de reiteradamente promover, e propor a destino, a conceituação colectiva, e o entendimento imperial, da Nação Portuguesa. Trata-se de uma petição de princípio, sem outras limitações, além das decorrentes da própria preservação do pecúlio espiritual e material da Nação. Trata-se, em suma, de prevenir, apenas, todas e quaisquer amputações que atinjam pensamento ou território.

Só dentro destes parâmetros é aceitável inscrever o plano-piloto de uma acção de incremento altamente fertilizante, orientada toda ela à valorização de sociedades complexas, consideradas na unitária policromia dos credos e etnias que as enformam.

Planificar em função do mapa ecuménico da Nação Portuguesa, eis a melhor forma, a mais eficaz, a única digna e autêntica de se fazer jus ao tal propósito de permanência na continuidade, que autentica a nossa posição, face às perplexidades sem conto que assoberbam esta hora lusíada.

De novo se pretende instaurar, no seio da Nação, todo um sistema de destruição de energias.

Mais uma vez há, entre nós, quem ao povo acene com proposições, das quais manda a caridade calar, porque, além de não apresentarem ponta de dignidade, já delas tivemos, em tempos, triste experiência de amarga memória .— Como se os métodos e os homens que usaram outrora o País em estado de sítio, e o levaram praticamente à bancarrota, porventura pudessem fruir de mais algum crédito junto da Nação!...

Sem embargo, o inimigo aí esta, ainda uma vez, a premir a tecla da traição, inclusivamente a tentar lisonjear, à viva força e a todo o transe, os mais baixos sentimentos e instintos de uma comunidade que, felizmente, no glorioso decurso da sua História, e outrossim contemporaneamente, mormente sob a égide de Salazar, jamais soube descartar-se de altívolas responsabilidades, ao modo de quem arreia o fardo — pesadíssimo, sem dúvida — de ser português.

Desde sempre, o povo tem sido, entre nós, o instrumento prodigioso da sua própria grandeza, o grande intérprete de si mesmo, o vero executor do seu destino histórico.

Nos mais nevrálgicos momentos da existência nacional, a Nação em peso tem sabido erguer-se, no cerrado levantamento das razões que lhe assistem. E, de armas em riste, invariavelmente o povo tem acorrido a devolver o País à sua própria autenticidade.

A mesma obstinação com que, todos à uma, de há anos a esta parte, andamos a rechassar, sem qualquer comiseração, o inimigo de fora-parte, é a mesma que há-de animar-nos — que tem de animar-nos —, doravante, a afrontar o inimigo interno.

Daí o movimento de indignação que nos assalta, só à simples ideia de que possa coincidir, com um período de desonra para o País, o tempo justamente em que a sua juventude mais verticalmente se tem conduzido e mais exemplarmente se tem comportado!

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